Pega Essa Dica -Querido Trópico

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Querido Trópico, dirigido por Ana Endara Mislov, acompanha a trajetória de Ana María, uma imigrante colombiana grávida que passa a trabalhar como cuidadora de Mercedes, uma mulher rica que enfrenta o avanço da demência. Na Cidade do Panamá, as duas, vindas de realidades completamente distintas, criam uma ligação inesperada que transforma ambas. Enquanto Mercedes tenta se agarrar às lembranças que a doença insiste em apagar, Ana María lida com as incertezas de construir uma nova vida longe de casa e às vésperas da maternidade. Aos poucos, o convívio entre elas se torna um refúgio, um espaço de escuta, vulnerabilidade e aprendizado mútuo. Com sensibilidade e sutileza, Querido Trópico fala sobre o poder das conexões humanas, o ato de cuidar e a delicadeza de existir em meio à perda e à mudança. É um retrato íntimo da empatia, essa força silenciosa capaz de unir pessoas separadas por mundos, idades e circunstâncias.

O drama levanta questões sobre os motivos, tanto físicos quanto emocionais, que levam mulheres a buscar refúgio nas fantasias diante das circunstâncias da vida. Aqui, Ana María e Mercedes encontram uma na outra um espelho de suas próprias dores e segredos.A cuidadora é quem presencia, de perto, os lapsos e a fragilidade da mulher idosa, enquanto esta, por sua vez, acessa a intimidade e a inquietação psicológica da cuidadora. As duas falam pouco, mas constroem um entendimento silencioso, feito de gestos e olhares.

A diretora conduz essa história e suas protagonistas com profundo respeito. Embora revele a intimidade de ambas, ela escolhe manter a câmera à distância, aproximando-se aos poucos, apenas em momentos realmente significativos. Essa proximidade é rara, mas ganha força quando acontece. Ana Endara Mislov parece interessada menos na exposição e mais na observação preferindo enxergar suas personagens em constante relação com o espaço que as cerca. Assim, vemos Ana María ao fundo de um corredor, observada à distância dentro do quarto, ou Mercedes, muitas vezes filmada de costas, revelada por fragmentos.

Mesmo assim, o roteiro acaba acumulando uma série de situações constrangedoras envolvendo Mercedes. Aquilo que antes era apenas uma indicação sutil da demência passa a se tornar algo evidente. Em outras palavras, o cuidado psicológico do início dá lugar a uma representação mais explícita e visível da deterioração da personagem. O drama começa a recorrer a certos clichês comuns nas narrativas sobre a doença como a perda de controle durante uma festa, a fuga pelas ruas ou o comportamento impulsivo diante da comida. No terço final, o filme se rende à tentação de acelerar as transformações, substituindo a sutileza e a sugestão por mudanças rápidas e diretas.

É um filme sensível que, além de abordar o envelhecimento, traz uma reflexão profunda sobre as diferenças de classe por meio da convivência entre as duas protagonistas como se o simples ato de compartilhar o mesmo espaço pudesse gerar compreensão mútua. Sendo ambas mulheres que enfrentam seus dilemas em silêncio, acabam se aproximando de forma quase inevitável. O drama convida o espectador à empatia, a olhar para uma realidade diferente da sua. Sem recorrer à ideia de “redenção”, o filme não tenta transformar suas personagens em pessoas melhores, mas mostra como essa convivência deixa marcas importantes na vida de cada uma.