Pega Essa Dica – A Sapatona Galáctica

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A Sapatona Galáctica é uma animação dirigida por Emma Hough Hobbs e Leela Varghese. A protagonista é Saira, uma princesa lésbica do espaço que vive no planeta Clitópolis. Ela conhece Kiki e, após duas semanas, já está completamente apaixonada a ponto de montar um álbum com os melhores momentos das duas juntas. No entanto, Kiki se sente pressionada e decide terminar o relacionamento de forma brusca, deixando Saira devastada.

Saira é uma jovem de origem indiana, sem amigos e pouco apreciada pelas suas duas mães, e se vê sozinha mais uma vez. O que começa como uma história de romance, ruptura e reparação se transforma, aos poucos, em uma jornada de autodescoberta e empoderamento feminino.

O roteiro encontra um equilíbrio interessante entre humor e drama. Um dos pontos mais marcantes é a maneira como a ansiedade de Saira é trabalhada ela se manifesta quase como uma antagonista perversa, surgindo em momentos inesperados com falas rápidas e piadas ácidas, trazendo um tom cômico para algo que, na vida real, costuma ser bastante pesado.

Existe também uma constante ridicularização dos homens brancos heterossexuais, o que considero um recurso um pouco batido, mas que em um filme como esse acaba sendo quase inevitável. Dentro do universo futurista da animação, os chamados Straight White Maliens não dominam mais o mundo eles são rejeitados e enviados para um planeta-lixão, onde choram e reclamam da dificuldade de conseguir mulheres. Mais do que vilões, são retratados como figuras patéticas, ressentidas e emasculadas diante da dominação interplanetária feminina.

A narrativa também aposta bastante em duplos sentidos e piadas sexuais durante praticamente toda a história. Para mim, isso se torna um pouco cansativo em alguns momentos, mas é aquele tipo de humor que claramente vai agradar quem gosta desse estilo mais provocativo.

Outro destaque é a presença da personagem Blade, uma drag de moral ambígua que atrai Saira para seu bar um espaço punk-rock perdido na galáxia. Essa sequência reforça a atmosfera irreverente do filme e contribui para a expansão do universo, que é tão exagerado quanto criativo.

Visualmente, é uma animação extremamente colorida, que me lembrou um pouco The Midnight Gospel (uma animação incrível). A simplicidade tanto na caracterização das personagens quanto nos cenários ajuda a intensificar o humor, principalmente em contraste com os temas adultos abordados pelas diretoras. A história consegue trazer uma sensação de normalidade para discussões importantes, como relacionamentos afetivos, autoestima de indivíduos queer e aceitação dentro das famílias.

A identidade de gênero e a orientação sexual deixam de ser uma questão moral a mulher lésbica não aparece como vítima nem como uma líder virtuosa, mas como uma jovem com o direito de ser complexa e, inclusive, carregar uma infinidade de angústias e inseguranças. O filme aproveita muito bem a ludicidade do desenho em conjunção com os aspectos mais sarcásticos da cultura queer, sendo escrito e dirigido por quem claramente conhece esse universo.

No fim, A Sapatona Galáctica é uma animação super interessante, com um humor ácido e uma estética vibrante, que consegue equilibrar provocação, crítica e sensibilidade em uma jornada divertida de autoconhecimento.