De Volta à Bahia, dirigido por Eliezer Lipnik e Joana Di Carso, acompanha a trajetória de Maya e Pedro, dois jovens apaixonados pelo surfe que se conectam por obra do destino após um vídeo de resgate no mar viralizar na internet. Sem saber que já compartilham essa história marcante, eles descobrem que treinam com o mesmo mentor e ídolo do esporte, o experiente treinador PH, que os apresenta acreditando se tratar de um primeiro encontro.
Enquanto se preparam para um campeonato decisivo em Salvador, Maya e Pedro se aproximam e vivem um romance, ao mesmo tempo em que enfrentam conflitos familiares e pressões pessoais que ameaçam seu equilíbrio dentro e fora d’água. Entre ondas desafiadoras e escolhas difíceis, aprendem que, para alcançar seus sonhos, precisam também enfrentar as próprias tempestades.

O filme apresenta Maya e Pedro logo nos primeiros minutos, já situando o público nos traumas que conduzem a narrativa. Maya vive o luto pela morte da mãe e fala abertamente sobre isso em um podcast, em São Paulo. Em busca de reconexão, viaja para a Bahia e tenta encontrar no surfe uma forma de cura, mas ainda não está pronta. Ao entrar no mar, sofre uma crise de pânico e quase se afoga, sendo salva por Pedro.
Pedro também carrega suas próprias feridas, perdeu o pai para o mar, e sua mãe nunca superou essa dor. O trauma dela se transforma em superproteção, especialmente porque o sonho do filho é justamente ser surfista. O conflito está estabelecido: o mar representa liberdade para ele e medo para ela.
O roteiro tenta aprofundar a dimensão psicológica ao revelar que o quase afogamento de Maya foi consequência de uma crise de pânico. A ideia é interessante, mas o desenvolvimento é superficial. O filme verbaliza os traumas o tempo todo, mas não os faz serem sentidos. Sabemos que os personagens sofrem eles dizem isso repetidamente, porém a dor não chega ao espectador com força dramática.
Um dos maiores problemas está na direção e no texto. As atuações soam artificiais, carregadas de frases feitas e diálogos que lembram discursos motivacionais. Não parece uma questão de falta de talento do elenco, há atores muito bons ali, mas de condução. O personagem que deveria funcionar como alívio cômico acaba se tornando caricato e deslocado, o que é uma pena, especialmente considerando o potencial de Juliano Laham. Já o professor PH assume quase permanentemente o papel de “coach”, oferecendo reflexões sobre o mar e a vida que, em muitos momentos, soam forçadas.
Essa dificuldade em se levar a sério compromete o drama. O romance é fofo e funciona dentro da proposta leve, mas a construção lembra narrativas adolescentes demora excessiva para o primeiro beijo, interrupções constantes, conflitos exagerados e explosões emocionais que não combinam com personagens adultos.

Pedro, em vários momentos, reage de forma desproporcional tanto com Maya quanto com a mãe o que enfraquece a empatia do público. Já Maya, embora reafirme sua maturidade, lida com o pai de uma maneira que parece presa à adolescência.
Quando falamos da química entre os protagonistas, ela até existe. Há momentos em que o casal funciona, e é possível torcer pelos dois eu mesma torci. No entanto, essa conexão soa forçada em várias cenas. Alguns olhares são exagerados, certas pausas parecem ensaiadas demais. É um romance que tenta convencer o público a todo custo.
O problema não está na ideia, mas na execução. Texto e direção tornam os conflitos convenientes demais surgem com intensidade e se resolvem rapidamente. Falta maturidade emocional para personagens que já viveram perdas significativas.
As ideias centrais são boas perdão, medo dos pais, traumas projetados nos filhos, luto mal resolvido. São temas potentes. Mas há informação demais e aprofundamento de menos. O filme quer abordar muitas questões e não se aprofunda verdadeiramente em nenhuma. Tudo acaba ficando raso.
A trilha sonora é agradável e combina com o clima leve da narrativa. Não é marcante, mas é gostosa de ouvir e acompanha bem as cenas. Ainda assim, considerando que a Bahia é praticamente um personagem do filme, havia espaço para explorar melhor a riqueza musical local. A escolha de inserir “Espresso”, da Sabrina Carpenter, em versão instrumental funciona, mas evidencia uma oportunidade perdida de mergulhar ainda mais na identidade cultural do cenário. Não chega a ser um erro, mas poderia ter enriquecido a ambientação.

O roteiro é previsível. Sabemos praticamente tudo o que vai acontecer desde cedo. Não há grandes surpresas. O filme explica demais até o sotaque do personagem recebe justificativa explícita. Nada fica subentendido; tudo é verbalizado.
Tecnicamente, no entanto, o filme é muito bonito. A fotografia valoriza a Bahia de forma encantadora o mar, a luz, as cores. A estética é vibrante, os figurinos são coloridos e coerentes com o cenário. Há um cuidado visual que sustenta boa parte da experiência.
E isso não significa que o filme seja ruim. Ele entretém. É agradável, visualmente bonito, tem uma atmosfera gostosa de praia, sol e recomeço. Mas, se o espectador se apegar demais à análise técnica, texto, direção, construção dramática provavelmente vai encontrar superficialidade.
Talvez funcione melhor para um público mais jovem. Porque, no fundo, o filme tenta passar mensagens importantes sobre cura, perdão e amadurecimento, mas acaba diluindo todas ao tentar abraçar temas demais em pouco tempo. É bonito. É leve. Mas é raso.

