Pega Essa Dica – O Estrangeiro

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O Estrangeiro, dirigido por François Ozon, acompanha Meursault, um francês que vive na Argélia nos anos 30 e que enxerga a vida de uma forma profundamente apática. Para ele, tudo parece desprovido de importância nas relações, acontecimentos e emoções. Nada realmente o afeta. Logo no início, vemos essa desconexão de forma clara após a morte da mãe, Meursault não demonstra qualquer tipo de tristeza ou mudança. Sua rotina segue intacta, como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte ao funeral, ele retoma sua vida normalmente, iniciando inclusive um envolvimento com Marie, sem que isso represente qualquer transformação interna. Essa indiferença, no entanto, passa a incomodar quem está à sua volta e também o espectador. A situação se intensifica quando, influenciado por um vizinho de caráter duvidoso, ele se envolve em um conflito que culmina em uma tragédia na praia, levando-o a ser acusado de assassinato 

O que mais chama atenção no filme é justamente o distanciamento emocional do protagonista. Meursault observa o mundo como se estivesse à margem dele, sem se envolver, sem reagir. Ele não vê valor nas relações interpessoais nem nas emoções humanas, tudo lhe parece banal, dispensável. Essa ausência de reação chega a ser perturbadora em diversos momentos quando presencia situações de violência, sofrimento ou vulnerabilidade, ele simplesmente não age. Isso torna a experiência do espectador desconfortável. É difícil criar empatia com o personagem e, em muitos momentos, surge até uma certa irritação diante da sua passividade. Ainda assim, o filme não busca justificar esse comportamento, mas sim apresentá-lo de forma crua, quase indecifrável.

Interpretado por Benjamin Voisin, Meursault ganha uma presença marcante. O ator constrói um personagem de olhar vazio, contido, cuja sinceridade não aproxima, pelo contrário, distancia ainda mais. É um trabalho muito preciso, que sustenta toda a proposta do filme. A narrativa se constrói mais pela observação do cotidiano do que pelos diálogos. E, quando eles surgem, são carregados de significado, especialmente na segunda parte do filme, durante o julgamento. É nesse momento que vemos o choque entre a lógica fria do protagonista e a necessidade social de atribuir sentido, emoção e moral às ações humanas.

Os personagens ao redor também reforçam esse contraste. Marie representa intensidade e afeto, tentando compreender alguém que, essencialmente, não se deixa acessar. Já outras figuras, como o vizinho violento e o homem que maltrata seu cachorro, são construídas para provocar repulsa mas, mesmo diante disso, Meursault permanece indiferente, o que intensifica ainda mais o desconforto.

Esteticamente, a escolha do preto e branco é extremamente acertada. A fotografia acentua a melancolia da narrativa e evidencia ainda mais os vazios emocionais do protagonista. As cenas na água, por exemplo, ganham uma beleza fria e silenciosa, reforçando o tom do filme. A trilha sonora também se destaca, funcionando de forma inteligente e alinhada com o ritmo contemplativo da história.

Dividido entre o período após a morte da mãe e o julgamento, o filme propõe uma reflexão sobre sentido, moralidade e pertencimento, mas sem oferecer respostas fáceis. Pelo contrário, ele provoca. Ainda assim, é uma experiência desafiadora. O ritmo mais lento e a total apatia do protagonista podem afastar em alguns momentos, e confesso que, em certos trechos, me vi desconectada, buscando respostas que não vieram. Mas talvez esse seja justamente o ponto o desconforto faz parte da proposta.