A Vida Secreta de Kika, dirigido por Alexe Poukine, acompanha uma mulher que precisa lidar com a morte precoce do parceiro ao mesmo tempo em que descobre uma segunda gravidez. Perdida emocionalmente e completamente sem estrutura financeira, Kika se vê obrigada a encontrar formas rápidas e muitas vezes humilhantes de sustentar a filha e sobreviver. O filme acompanha essa personagem tentando reorganizar a própria vida enquanto tudo ao redor parece desmoronar.

E desde o começo já fica muito claro qual é a proposta do filme. A gente acompanha uma vida aparentemente comum, pacata, mas que claramente já estava carregada de pequenas frustrações antes mesmo da tragédia acontecer. A Kika não parece exatamente feliz com a vida que levava, e a morte do parceiro funciona quase como um rompimento definitivo daquela estabilidade falsa que ela ainda tentava manter.
É um filme lento. Muito lento. E sinceramente, acho que ele exige bastante paciência do público. Existe esse ritmo mais contemplativo e arrastado que lembra muito alguns dramas franceses, onde o foco não está necessariamente em criar tensão ou grandes acontecimentos, mas em acompanhar emocionalmente aquela personagem afundando aos poucos dentro da própria realidade. Só que em alguns momentos isso pesa demais.
O filme é longo e eu realmente acho que ele poderia ser menor. Existe uma sensação constante de repetição emocional, como se a narrativa insistisse várias vezes na mesma melancolia sem necessariamente avançar tanto assim. E isso acaba cansando. Ainda assim, o longa funciona muito pela construção da própria Kika.

A gente acompanha uma mulher que perde completamente a estabilidade e precisa se reinventar da pior forma possível. Ela precisa conseguir dinheiro rápido, tomar decisões impulsivas, lidar com humilhações e atravessar situações que provavelmente jamais imaginou viver. E acho interessante como o filme trabalha justamente essa quebra moral da personagem.
Kika trabalha com assistência social, então ela é alguém acostumada a observar a vulnerabilidade dos outros e até a julgar certas escolhas de algumas pessoas. Conforme a situação dela piora, o filme vai desmontando essa visão. Aos poucos, ela começa a perceber que quando a sobrevivência entra em jogo, as fronteiras morais ficam muito mais confusas do que parecem. E é justamente aí que acho a personagem muito bem construída. Ela não é uma protagonista necessariamente carismática. Na verdade, em vários momentos ela é até meio tediosa. Mas acho que isso faz parte da proposta do filme. Existe um desgaste emocional tão grande nela que tudo parece pesado, cansado e sem energia.
Só que conforme a narrativa avança, o discurso dela muda completamente. A postura dela muda. A forma como ela reage às pessoas muda. E dá para perceber claramente a confusão interna daquela mulher tentando entender quem ela virou depois da perda do parceiro. O filme gasta bastante tempo mostrando quem era essa mulher antes da tragédia, justamente para que a gente perceba o surgimento dessa nova versão da personagem. E honestamente? Acho que essa transformação é a parte mais interessante do longa. Enquanto os outros personagens acabam sendo tratados de forma mais superficial.

O pai e o padrasto dela, por exemplo, são extremamente inconvenientes e sufocantes. Existe um desconforto constante nas relações familiares, principalmente na maneira como eles interferem na criação da filha e na vida pessoal da Kika. E isso ajuda a gente a entender por que ela quer sair dali desesperadamente.
Mas ao mesmo tempo, sinto que vários personagens aparecem e desaparecem sem grande aprofundamento. O roteiro até levanta questões interessantes sobre essas pessoas, mas raramente desenvolve algo de verdade. Existem alguns pequenos furos narrativos também, principalmente na forma como certos contatos e situações simplesmente surgem para a personagem. Nada disso destrói o filme, mas enfraquece um pouco a narrativa.
Visualmente, A Vida Secreta de Kika é extremamente melancólico. A fotografia tem um aspecto apagado, triste, quase sem vida. Tudo parece cansado o tempo inteiro. E acho que isso conversa diretamente com a protagonista. O filme inteiro carrega uma sensação de desgaste emocional muito forte. Só que existe um problema importante aí o longa quase nunca muda de ritmo emocional.

Mesmo nas situações mais absurdas ou desconfortáveis, o filme permanece numa linha muito constante, muito plana. Não existem grandes explosões emocionais, nem momentos reais de tensão. É como se tudo fosse conduzido numa melancolia contínua, sem altos e baixos. E talvez seja justamente isso que torne o filme tão cansativo em alguns momentos. Ainda assim, existe algo muito humano nessa história. Principalmente na forma como o filme discute até onde uma mulher precisa chegar para sobreviver, sustentar os filhos e recuperar minimamente a própria autonomia.
A Vida Secreta de Kika funciona muito mais como estudo de personagem do que como grande drama narrativo. É um filme sobre desgaste, sobre vergonha, sobre sobrevivência e sobre uma mulher tentando reconstruir a própria identidade depois de perder completamente o controle da vida.

