Pega Essa Dica – Fora de Controle

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Fora de Controle, dirigido por Anne Le Ny , acompanha o casamento de Julie e Marie, juntas há 15 anos, que começa a entrar em crise quando o primeiro grande amor da juventude de Julian retorna para a cidade. Consumida pela insegurança e pelo medo de perder o relacionamento, Marie acaba se envolvendo impulsivamente com seu chefe, Thomas. O que inicialmente parece apenas uma aventura motivada por ciúmes e carência rapidamente se transforma em algo muito mais sombrio, quando Thomas revela um comportamento manipulador, obsessivo e perigoso, colocando Marie e toda sua família em uma situação cada vez mais sufocante.

O mais interessante em Fora de Controle é justamente a forma como o filme engana o espectador no começo. A sensação inicial é de que estamos entrando em um drama romântico sobre insegurança e crise conjugal, talvez até em uma narrativa sobre uma mulher dividida entre dois homens. Mas aos poucos o filme vai revelando que a história é muito mais pesada do que aparenta. E essa virada funciona muito bem justamente porque o roteiro sabe construir tensão sem precisar apressar as coisas.

O longa trabalha muito bem a ideia de como decisões impulsivas podem abrir portas para situações extremamente perigosas. Existe um desconforto muito grande no filme, principalmente para o público feminino, porque ele aborda um medo muito real o momento em que um homem percebe que tem poder sobre uma mulher e começa a usar isso como forma de controle. E aqui o terror não vem de algo sobrenatural ou exagerado, mas justamente da sensação de realidade. A partir do momento em que Thomas começa a revelar sua verdadeira personalidade, o filme ganha um peso completamente diferente e passa a funcionar quase como um thriller psicológico.

Marie é uma personagem complicada. Em muitos momentos ela irrita justamente por tomar decisões impulsivas, por não dialogar e por agir de forma extremamente emocional mesmo sendo uma mulher madura. Mas acho interessante como o filme não tenta transformá-la em uma protagonista perfeita ou totalmente racional. Pelo contrário ele constrói uma personagem profundamente insegura em todas as áreas da vida. Essa insegurança não está apenas no casamento, mas também na relação familiar, no trabalho e na forma como ela enxerga a si mesma. E é justamente essa fragilidade emocional que a coloca em uma posição vulnerável diante de Thomas.

O roteiro é muito competente em desenvolver essa espiral de tensão. As informações são entregues no momento certo, sem exageros, e o filme consegue fazer a narrativa crescer de maneira bastante orgânica. O que começa como frustração emocional vai lentamente se transformando em medo, paranoia e sensação de aprisionamento. Existe um cuidado muito grande na construção dessa atmosfera sufocante, e a direção entende perfeitamente o tom que quer alcançar.

Eu só senti falta de um aprofundamento maior no passado do relacionamento dela com Julian e principalmente nesse primeiro amor que retorna para a cidade. O filme nos mostra a insegurança dela o tempo inteiro, mas não aprofunda tanto as razões dessa paranoia. Em nenhum momento Julian parece dar sinais concretos de traição ou afastamento, então acredito que conhecer melhor esse histórico deixaria as emoções da personagem ainda mais fortes e compreensíveis.

Ainda assim, os diálogos funcionam muito bem. O filme sabe trabalhar conversas desconfortáveis sem parecer artificial, e isso ajuda muito na sensação de realidade da trama. As atuações também são bastante convincentes, principalmente porque o elenco consegue sustentar esse clima melancólico que atravessa o longa inteiro.

Visualmente, tudo acompanha o estado emocional da protagonista. A fotografia fria e apagada, junto da trilha sonora melancólica, reforça constantemente a sensação de vazio, ansiedade e desgaste emocional que Marie carrega. É um filme que nunca explode completamente, mas também nunca deixa a tensão desaparecer. Existe uma angústia constante, silenciosa, quase sufocante.

É um filme tenso, melancólico e desconfortável em muitos momentos, mas justamente por isso consegue provocar reflexão. E talvez o aspecto mais assustador da história seja perceber o quanto tudo ali parece possível.