Dirigido por André Klotzel, Sem Pai Nem Mãe acompanha Arthur, um comediante de stand-up que leva uma vida bastante desorganizada, com a porta de casa praticamente sempre aberta e enfrentando um momento delicado em seu relacionamento. Insatisfeito com os rumos de sua carreira, ele decide se aventurar em um projeto completamente diferente escrever um livro sobre uma jovem militante que participou da luta armada durante a ditadura militar brasileira nos anos 1970. O problema começa quando seu computador é roubado e, junto com ele, a única cópia de seu manuscrito. Determinado a recuperar seu trabalho, Arthur embarca em uma busca pelos responsáveis pelo crime, contando com a ajuda de um aplicativo capaz de fotografar quem utiliza o equipamento e enviar as imagens por e-mail.

O que poderia ser apenas uma comédia sobre um sujeito tentando recuperar seu computador acaba se transformando em uma narrativa muito mais interessante. Um dos grandes acertos do filme está justamente na maneira como consegue trabalhar duas histórias aparentemente distintas, alternando entre a realidade de Arthur e o universo que ele está construindo em seu livro. No início, essa dinâmica pode provocar uma pequena confusão, especialmente quando os personagens das duas narrativas começam a se encontrar. Entretanto, é uma questão que se resolve naturalmente conforme o roteiro avança, sem exigir grandes explicações ou tornar a experiência complicada para o espectador.
Aliás, considero o roteiro um dos grandes destaques da produção. Existe um cuidado muito interessante na maneira como os acontecimentos são organizados, como os diferentes núcleos se desenvolvem e, principalmente, como os acontecimentos aparentemente desconexos encontram seu lugar dentro da história. Os plots funcionam, as situações vão ganhando novas camadas e aquilo que inicialmente parece exagerado ou deslocado acaba encontrando uma justificativa dentro da própria narrativa. É um trabalho de construção que demonstra bastante segurança, especialmente por conseguir lidar com tantos elementos sem perder o fio condutor.
Outro ponto que merece atenção é o equilíbrio entre os diferentes tons do filme. Estamos falando de uma comédia, mas existe uma temática bastante delicada sendo trabalhada aqui. Ao abordar a ditadura militar brasileira e a luta daqueles que resistiram ao regime, o longa precisa lidar com um período doloroso da nossa história. E gosto muito de como Klotzel encontra esse equilíbrio. O humor aparece, a ironia está presente e existem situações genuinamente divertidas, mas nada disso transforma o contexto histórico em motivo de deboche. Existe uma consciência sobre o peso desses acontecimentos, e o filme consegue preservar essa dimensão dramática sem abrir mão de sua proposta cômica.

É interessante acompanhar esses altos e baixos. Em determinados momentos estamos envolvidos nas confusões de Arthur, em outros somos levados para um cenário completamente diferente, marcado pela repressão política, pela resistência e pelas consequências de um período extremamente difícil do país. Essa alternância de atmosferas funciona muito bem e impede que a produção se transforme em um dramalhão ou, no extremo oposto, em uma comédia que trata seus assuntos de maneira superficial. Existe espaço para rir, mas também existe espaço para sentir o peso daquilo que está sendo contado.
Arthur também é um personagem interessante justamente por suas fragilidades. Ele parece ser alguém bastante receptivo, sensível e com certa dificuldade de estabelecer limites. Talvez isso explique, inclusive, a situação quase absurda de sua casa estar sempre sujeita a invasões e assaltos. É um homem que parece ter dificuldade de dizer não, que acumula frustrações e inseguranças e que, apesar de todos os problemas, continua tentando encontrar algum sentido para aquilo que faz.
Sua vida profissional também atravessa um momento de insatisfação. Já não parece encontrar na comédia o mesmo entusiasmo de antes e, ao decidir escrever sobre um assunto tão distante de seu trabalho habitual, acaba buscando uma maneira diferente de se expressar. O livro parece representar muito mais do que um novo projeto é uma necessidade pessoal, uma tentativa de colocar para fora questões que talvez ele próprio ainda não consiga organizar.

E, falando em relacionamentos, sua namorada é uma personagem que exige um pouco de paciência do espectador. É difícil não se perguntar o que Arthur ainda está fazendo naquela relação! Entre comparações constantes com o ex, comentários sobre sua carreira e uma postura bastante desagradável, ela parece fazer questão de diminuir o protagonista sempre que encontra uma oportunidade. É uma dinâmica que provoca certa revolta, mas também ajuda a compreender algumas das inseguranças e frustrações que acompanham Arthur. Apesar de sua participação na trama ter uma função importante para o desenvolvimento da investigação, sua presença acaba sendo mais um dos problemas que o protagonista precisa administrar.
Gosto também de como os personagens criados por Arthur começam a ocupar um espaço cada vez mais significativo na narrativa. Aos poucos, aquela história que existia apenas no computador passa a dialogar diretamente com sua realidade, influenciando situações e até algumas decisões. A ficção deixa de ser apenas um exercício de escrita e começa a se misturar à vida de seu criador.
Nesse sentido, existe outra escolha do roteiro que achei especialmente interessante. Em determinados momentos, os diálogos e as situações envolvendo os personagens do livro parecem um pouco caricatos, quase como se algumas falas não combinassem completamente com quem está dizendo aquilo. Inicialmente, isso me causou certo estranhamento. Entretanto, conforme entendemos melhor o processo de Arthur, essa impressão ganha outra dimensão. Estamos acompanhando alguém que está se aventurando pela primeira vez em uma escrita mais séria, distante da comédia com a qual está acostumado. Ele ainda está experimentando, encontrando sua linguagem e descobrindo as possibilidades daquela história. Até mesmo as mudanças de cenas e de situações dentro do universo ficcional ajudam a construir essa percepção. O que poderia ser interpretado simplesmente como uma falha acaba fazendo sentido dentro da proposta do filme.

A quantidade de personagens também merece destaque. Existem diferentes figuras que circulam pela vizinhança de Arthur e pelos outros núcleos da história, mas o roteiro consegue trabalhar essas participações sem transformar tudo em uma grande confusão. Pelo contrário, alguns desses personagens acabam surpreendendo e contribuindo para acontecimentos que, mais adiante, encontram uma conexão bastante satisfatória. É interessante perceber como o filme consegue ampliar seu universo sem perder o controle da narrativa.
Sem Pai Nem Mãe foi uma ótima surpresa. É um filme que passa rápido, consegue arrancar boas risadas e, ao mesmo tempo, deixa algumas reflexões sobre criação, frustração, memória e a nossa própria história. Gosto especialmente de como a produção trabalha com a ironia sem recorrer ao cinismo, reconhecendo a seriedade de seus temas mesmo quando escolhe abordá-los pelo caminho do humor. E seu desfecho fecha muito bem essa experiência. É daqueles finais que fazem você olhar para trás e perceber como diferentes elementos foram sendo construídos ao longo da narrativa.

