Dirigido por Kim Scott, Era Uma Vez Minha Mãe é um filme que mergulha na força do amor materno e nas complexidades que podem surgir a partir dele. Ambientada a partir de 1963, a história acompanha Esther, uma mãe determinada que, ao dar à luz Roland um filho com uma deficiência que o impede de andar, faz uma promessa que guiará toda a sua vida ele terá uma existência plena, repleta de conquistas, independentemente das limitações impostas pelos outros ou pela sociedade.
A partir desse ponto, o filme se constrói como uma jornada que atravessa diferentes fases da vida de Roland, permitindo ao espectador observar não apenas seu crescimento, mas também as consequências de uma criação pautada por um amor intenso e, muitas vezes, absoluto. Esther é retratada como uma figura extremamente forte, resiliente e movida por uma fé inabalável uma mulher que não mede esforços para cumprir aquilo que prometeu ao filho. No entanto, o longa acerta ao não romantizar completamente essa relação.

Existe, aqui, um olhar sensível para os limites desse amor. Ao mesmo tempo em que a dedicação de Esther impulsiona Roland, também revela um lado mais complexo a superproteção. Ao longo da narrativa, fica evidente que esse cuidado extremo, embora nasça de um lugar genuíno, acaba por invadir espaços importantes da vida do filho, dificultando sua autonomia e interferindo em outras relações. O filme constrói esses conflitos de forma gradual, mostrando como essa dinâmica impacta não apenas Roland, mas também o entorno familiar.
Um dos pontos mais interessantes da obra está justamente nessa dualidade. Não se limita a ser uma história de superação no sentido mais tradicional. Ele propõe uma reflexão mais profunda sobre até que ponto o amor pode ultrapassar limites e quais são as consequências disso. A relação entre mãe e filho, tão central na narrativa, é apresentada com nuances não idealizada, mas também não julgada. É uma relação intensa, marcada tanto por afeto quanto por tensões silenciosas.

Narrativamente, o filme se sustenta na evolução dos personagens. Acompanhamos Roland em diferentes momentos da vida, percebendo como ele absorve e, aos poucos, questiona os ensinamentos e as escolhas da mãe. Esse processo de amadurecimento é um dos aspectos mais ricos da história, ainda que outras relações do protagonista sejam exploradas de forma mais superficial, aparecendo quase como recortes que servem para reforçar o impacto da presença materna em sua trajetória.
Visualmente e tecnicamente, o longa também chama atenção. O trabalho de caracterização, especialmente no envelhecimento dos personagens, é bem executado e contribui para a imersão ao longo das diferentes fases da narrativa. Além disso, o filme apresenta uma sensibilidade estética que acompanha o tom da história, sem recorrer a excessos, valorizando mais a construção emocional do que grandes efeitos ou simbolismos exagerados.
Outro ponto interessante é o contato com uma cultura e costumes diferentes, que enriquecem a experiência e trazem uma camada adicional à narrativa. Há momentos de leveza e até humor, que ajudam a equilibrar o peso emocional da história, tornando a jornada mais orgânica e próxima do espectador.

Apesar de seu impacto, o filme pode soar um pouco longo em alguns momentos, especialmente por se concentrar de forma tão intensa na relação central. Ainda assim, isso não compromete a força da obra, que se mantém envolvente ao propor reflexões importantes sobre amor, autonomia, limites e identidade.
No fim, Era Uma Vez Minha Mãe é um filme sensível, tocante e, acima de tudo, necessário. Ele nos convida a olhar com mais cuidado para relações que muitas vezes são idealizadas, mostrando que até mesmo os sentimentos mais nobres podem carregar contradições. É uma história que emociona, mas que também provoca e talvez seja justamente isso que a torna tão marcante.

