O Mundo gay só se resume a isso no cinema nacional?
Ruas da Glória é um filme brasileiro de 2026 que aposta em um drama provocativo e adulto, com classificação +18, explorando o universo da prostituição masculina no Rio de Janeiro. A direção de Felipe Sholl busca um tom realista e urbano, com locações autênticas e uma atmosfera carregada de solidão e desejo. Ainda assim, o resultado final é irregular e mais forte na proposta do que na execução.

O roteiro acompanha um jovem em luto que se envolve com um garoto de programa e acaba entrando em uma espiral de obsessão após o desaparecimento dele. A premissa até é interessante, mas o roteiro se perde ao longo da narrativa, ficando repetitivo e até cansativo em alguns momentos, sem conseguir sustentar o impacto que promete no início.
No elenco, Caio Macedo e Alejandro Claveaux entregam atuações boas e convincentes, mas mal aproveitadas dentro da estrutura do filme. Existe presença em cena e intensidade emocional, porém os personagens não recebem desenvolvimento suficiente para que o trabalho dos atores atinja todo o seu potencial.
O filme ousa ao inserir cenas de sexo explícito e ao tentar construir um retrato cru desse universo, algumas vezes de forma desnecessária. Em alguns momentos, a sensação é de que a narrativa se aproxima mais de um conteúdo +18 com história do que de um drama cinematográfico bem estruturado. Isso enfraquece a experiência e reduz o impacto dramático que poderia ser mais profundo. O sexo no cinema é legal, porém, quando só se tem isso por muito tempo de tela, torna-se incômodo.

O ponto mais forte do filme acaba sendo a atmosfera e a ambientação, além de algumas interpretações e escolhas estéticas. Porém, isso pesa mais do que o próprio roteiro, que não consegue manter consistência. Além disso, a forma como o universo retratado é construído reforça uma visão limitada da vivência gay, associando repetidamente a homossexualidade à marginalidade, prostituição, drogas e rejeição familiar e social. Esse tipo de abordagem pode até ter seu interesse em alguns pontos narrativos, mas, ao ser repetido de forma tão constante, acaba reforçando um estereótipo que a própria sociedade já carrega sobre o homem gay, reduzindo sua imagem quase sempre a esse mesmo recorte.
No fim, Ruas da Glória chama atenção pela ousadia e pela estética, mas escorrega no roteiro e na construção narrativa, que se tornam os principais problemas da obra. Funciona mais pelo impacto e pela atmosfera do que pela história em si.

