Vivendo intensamente sua juventude entre festas, bebidas e diferentes planetas, Kara Zor-El (Milly Alcock) está prestes a completar 23 anos enquanto enfrenta uma profunda crise de identidade. Longe de sua casa, de sua família e sem um lugar que realmente possa chamar de lar, a heroína tenta encontrar seu propósito em meio às cicatrizes do passado. Em Supergirl, adaptação da aclamada HQ Supergirl: Mulher do Amanhã, de Tom King e Bilquis Evely, acompanhamos uma aventura com fortes influências de um faroeste espacial, na qual Kara embarca em uma missão para salvar seu cachorro Krypto, envenenado por Krem (Matthias Schoenaerts). O mesmo criminoso também foi responsável pelo assassinato da família da jovem Ruthye (Eve Ridley), que busca vingança pelos entes queridos. Unidas por diferentes motivações, as duas iniciam uma jornada caótica e emocionante pela galáxia.

O filme funciona como uma excelente introdução para a personagem dentro do novo universo da DC Studios. Diferentemente de Superman (2025), que apresentava uma aventura mais centrada na Terra e lembrava, em alguns momentos, produções como Smallville, aqui a proposta é muito mais cósmica e intimista. Embora o longa anterior tivesse a missão de estabelecer diversos personagens e conceitos importantes para o futuro do universo compartilhado, Supergirl concentra seus esforços no desenvolvimento da protagonista e nos conflitos pessoais que ela enfrenta. A narrativa explora suas responsabilidades no início da vida adulta, sua relação com Superman, além dos traumas ligados à destruição de Krypton e à perda de Argo City. Ao mesmo tempo, o filme amplia significativamente a escala do novo DCU ao apresentar diferentes planetas, espécies alienígenas e culturas espalhadas pelo espaço.
Milly Alcock é, sem dúvidas, o grande destaque do longa. A atriz entrega uma protagonista extremamente carismática, capaz de alternar com naturalidade entre momentos de humor, sarcasmo, vulnerabilidade e emoção. Sua Supergirl é divertida e impulsiva, mas carrega um profundo sentimento de perda que torna a personagem muito mais complexa. Quando o roteiro exige, Milly também consegue transmitir toda a dor e solidão que moldaram Kara ao longo da vida. É uma interpretação marcante que a estabelece como uma das figuras mais promissoras e carismáticas apresentadas até agora neste novo universo da DC.

Ao seu lado, Eve Ridley desempenha bem o papel de Ruthye, funcionando como um importante catalisador dos conflitos da trama. Embora sua história pudesse ter recebido um desenvolvimento mais aprofundado, a personagem contribui para o amadurecimento de Kara e gera diversas situações que impulsionam a narrativa. A dinâmica entre as duas funciona muito bem e lembra, em certos momentos, a clássica relação entre mentor e aprendiz vista em duplas como Batman e Robin. David Corenswet também faz uma participação como Superman, e sua química com Milly Alcock já prepara o terreno para futuros encontros dos primos kryptonianos. Jason Momoa rouba a cena como Lobo, trazendo humor e personalidade sempre que aparece, ainda que sua participação pareça um pouco desconectada da trama principal. Já Krypto continua sendo um dos personagens mais carismáticos do DCU, fortalecendo o vínculo emocional da história sempre que surge em cena.
As sequências espaciais são visualmente impressionantes, especialmente durante os momentos de voo e combate da protagonista, com efeitos especiais ótimos. A direção de Craig Gillespie contribui para que essas cenas tenham impacto e personalidade, valorizando tanto os poderes quanto o carisma da heroína. Por outro lado, certas escolhas estéticas podem dividir opiniões. Em alguns momentos, o longa abraça tanto sua inspiração de faroeste espacial que acaba adotando uma paleta de cores excessivamente escura e pouco vibrante, o que nem sempre combina com o tom de aventura proposto pela narrativa. Tons de bege e cinza predominam em muitas das cenas, o que é uma ótima escolha para dar contraste ao uniforme colorido da Supergirl, que só passa a ser utilizado na reta final da trama, mas não combinam totalmente com a identidade visual proposta pela obra. A trilha sonora também oscila bastante e, em determinados momentos, parece não encontrar o equilíbrio ideal com a proposta da narrativa.

É ao explorar o passado de Kara que o filme encontra sua maior força dramática. Os flashbacks relacionados a Krypton, Argo City e à sua família aprofundam a personagem e ajudam o público a compreender os traumas que a acompanham. Diferentemente de Kal-El, que chegou à Terra ainda bebê, Kara testemunhou a destruição de seu mundo e carregou essas memórias por toda a vida. Esses momentos adicionam peso emocional à narrativa e reforçam uma das ideias centrais da HQ que inspirou o filme.
Apesar de suas qualidades, o roteiro apresenta alguns problemas consideráveis, especialmente relacionados ao ritmo e à utilização dos poderes da protagonista. Em diversos momentos, a trama parece encontrar dificuldades para lidar com o enorme nível de poder da Supergirl. Para evitar que determinados conflitos sejam resolvidos rapidamente, o roteiro recorre diversas vezes a mecanismos que enfraquecem a protagonista, seja por estar bêbada, intoxicação, ser exposta a um ‘sol verde’ ou pela própria kryptonita. Embora essas situações funcionem isoladamente, sua repetição prejudica o ritmo da narrativa e transmite a sensação de que os roteiristas nem sempre encontram formas orgânicas de equilibrar os desafios enfrentados pela personagem. Essa sucessão de limitações acaba impactando diretamente o andamento da história, contribuindo para um terceiro ato que se prolonga além do necessário antes de alcançar sua conclusão.

Ainda assim, Supergirl representa mais um passo sólido na construção do novo universo da DC Studios. Trata-se de uma aventura espacial divertida, emocional e relativamente contida, mais preocupada em desenvolver sua protagonista do que em preparar dezenas de histórias futuras. O longa funciona como um importante capítulo de amadurecimento para Kara Zor-El, acompanhando sua transformação de uma jovem perdida para uma heroína capaz de compreender suas responsabilidades. Mesmo apresentando tropeços de ritmo e algumas decisões questionáveis de roteiro, o filme entrega diversão, emoção e uma protagonista extremamente cativante, fazendo com que a experiência valha a pena para os fãs da personagem, dos quadrinhos de Tom King e Bilquis Evely ou simplesmente para aqueles que desejam acompanhar os próximos passos do DCU.
PS: O filme não possui cenas pós-créditos.

