Pega Essa Dica – Nem Tudo é Paz e Amor

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Quando eu vi o tema de Nem Tudo é Paz e Amor, documentário dirigido por Betão Aguiar, eu me interessei muito porque é um assunto sobre o qual eu nunca tinha parado para pensar como foi a infância dos filhos dos artistas, músicos e ativistas que viveram tão intensamente os ideais da contracultura?

A gente conhece essas pessoas que fizeram parte daquele período, conhece suas músicas, suas ideias, suas lutas e toda a revolução cultural que aconteceu, mas raramente paramos para pensar em como era a vida dos filhos que estavam ali no meio de tudo isso. E foi justamente isso que eu achei mais interessante no documentário, poder ouvir essa história da boca dessas crianças, hoje adultas, que viveram aquele período.

Porque existe uma coisa muito curiosa quando pensamos na relação entre pais e filhos nós, seres humanos, somos seres faltantes. Às vezes, uma criança que cresce com pais muito rígidos deseja que eles sejam mais flexíveis, que deem mais liberdade. Aqui encontramos quase o movimento contrário. São filhos de pais com uma cabeça extremamente aberta, que acreditavam na liberdade, no diálogo e em romper com padrões, mas que, muitas vezes, sentiam falta justamente de estrutura, rotina, limites e estabilidade.

Eles cresceram em um ambiente em que coisas que hoje parecem absolutamente comuns eram vistas como símbolos de uma sociedade careta. Ter determinados móveis em casa, seguir horários muito rígidos, ter uma rotina tradicional, tudo isso poderia ser questionado. Ao mesmo tempo em que essas crianças tinham uma liberdade enorme, algumas delas também sentiam falta de coisas que outras crianças tinham. E existe uma coisa muito interessante aí eles não necessariamente achavam que seus pais estavam errados. Eles apenas perceberam, ao crescer, que aquela forma de viver era diferente das outras crianças.

Isso fica ainda mais evidente quando essas crianças começam a frequentar a escola e percebem que suas famílias eram diferentes das outras. Elas começam a comparar suas experiências, perceber os padrões sociais e, de alguma maneira, desejar se encaixar neles. E isso me fez pensar muito em como a sociedade também participa da nossa formação. Às vezes, aquilo que aprendemos dentro de casa parece completamente normal até entrarmos em contato com outras realidades e percebermos que existem outras formas de viver.

Ao mesmo tempo, achei muito interessante perceber o quanto essas crianças foram criadas com uma abertura para conversar sobre assuntos que, naquela época, poderiam ser considerados extremamente difíceis. Havia espaço para falar sobre preconceito, liberdade, sexualidade e até sobre substâncias ilícitas de uma maneira muito mais aberta. Isso não significa que tudo tenha sido perfeito muito pelo contrário. O próprio documentário mostra as contradições dessa criação. Mas existe algo muito bonito na disposição desses pais para conversar e explicar, em vez de simplesmente esconder determinados assuntos das crianças.

Não é simplesmente sobre dizer que aqueles pais estavam certos ou errados. É sobre entender que eles estavam criando seus filhos a partir daquilo em que acreditavam. Eles queriam construir um mundo diferente e, naturalmente, tentaram transmitir esses valores para os filhos. E cada um deles, depois, teve a oportunidade de decidir o que queria carregar daquela criação e o que queria deixar para trás. Inclusive, alguns acabaram se revoltando contra aquilo que receberam.

Além disso, existe um elemento que me prendeu muito são filhos de pessoas que nós conhecemos. Estamos falando de filhos de grandes artistas brasileiros, pessoas que fizeram parte da nossa história cultural. Então ouvir esses adultos contando como era ter Caetano Veloso, Rita Lee, Gilberto Gil e tantos outros como pais muda completamente a nossa perspectiva. Porque enquanto esses artistas estavam fazendo suas revoluções, criando músicas, quebrando padrões e vivendo intensamente aquele momento histórico, seus filhos estavam em casa sentindo saudade, querendo a presença dos pais, fazendo tarefas escolares e simplesmente tentando entender o próprio mundo.

Visualmente, também gostei muito do documentário. A direção de arte é muito bonita e a escolha do acervo foi muito acertada. As entrevistas combinadas às imagens pessoais e aos registros daquela época ajudam muito a criar essa sensação de estarmos entrando não apenas na história desses artistas, mas na infância dessas pessoas. E existe uma identidade muito brasileira em tudo isso. É um documentário que fala de arte, música, contracultura, política, família e infância, mas que, acima de tudo, fala de um Brasil que estava mudando.

No final, o que fica é uma percepção de que nenhum pai ou mãe acerta o tempo inteiro. Aqueles pais tiveram seus acertos e seus erros, assim como todos nós tivemos ou teremos com as nossas próprias famílias. E achei muito bonito perceber que, apesar das dificuldades, muitos desses filhos hoje conseguem olhar para trás com orgulho e carinho. Eles entendem o contexto em que os pais viveram, reconhecem a importância daquela experiência e conseguem enxergar que, dentro das possibilidades e das crenças que tinham, seus pais estavam fazendo o melhor que podiam.