Minha Melhor Amiga é o novo filme dirigido por Susana Garcia e protagonizado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães. A história acompanha Júlia e Clara, duas mulheres na casa dos 50 anos que decidem sair da rotina e viajar pela Europa depois de se despedirem das filhas, Manu e Isadora, que embarcam para Portugal para um intercâmbio. O que começa como uma viagem para lidar com a saudade das filhas acaba se transformando em uma jornada de descobertas, reencontros e novas possibilidades.

E que delícia de filme, entrega exatamente aquilo que promete, mas consegue ir além. Eu já esperava gostar, porque filmes nacionais com Mônica Martelli e Ingrid Guimarães costumam me conquistar, mas aqui existe algo especialmente gostoso de acompanhar. É um filme leve, divertido e muito natural, que consegue abordar questões importantes sem transformar tudo em um grande discurso.
O filme é inspirado na amizade real de Mônica e Ingrid, embora a história seja completamente roteirizada, e isso é perceptível de uma maneira muito positiva. Em alguns momentos, é impossível não enxergar as próprias atrizes por trás das personagens e eu acho isso lindo. Existe uma intimidade, uma confiança e uma liberdade entre elas que vem de anos de amizade e isso é perceptível na tela. A química é tão boa que você não precisa de grandes explicações sobre quanto tempo aquelas duas pessoas estão juntas. Inclusive, alguns momentos reais da amizade das atrizes serviram de inspiração para determinadas situações do filme, e isso ajuda a explicar essa sensação tão genuína.
A química também funciona muito bem entre elas e as atrizes que interpretam suas filhas. A escalação é excelente. Elas realmente parecem mãe e filha, e as relações são construídas de uma maneira natural, sem cair naquela caricatura de conflito entre gerações. E falando em gerações, a relação entre mães e filhas é um dos pontos mais interessantes do filme.

As meninas estão vivendo suas próprias experiências, descobrindo o mundo e construindo suas vidas, enquanto Júlia e Clara precisam aprender a lidar com uma realidade muito comum os filhos crescem e deixam de precisar tanto dos pais. Existe uma necessidade de desapego, de entender que a vida das filhas não gira mais em torno delas e, ao mesmo tempo, descobrir o que fazer com o espaço que fica quando a maternidade deixa de ocupar todos os lugares. Mas, para mim, vai além da maternidade. O grande tema do filme é a mulher madura e todas as possibilidades que continuam existindo depois dos 50.
Júlia e Clara estão em momentos completamente diferentes, mas ambas percebem que existem coisas em suas vidas que já não fazem mais sentido. E a viagem funciona justamente como uma oportunidade para elas se permitirem olhar para isso. Júlia, interpretada por Mônica Martelli, é uma mulher realizada profissionalmente, independente e cheia de energia, mas extremamente fechada para o amor. No começo, confesso que achei algumas atitudes dela um pouco exageradas, mas, conforme a história avança, comecei a entender melhor de onde aquilo vinha. Às vezes, depois de determinados traumas, a pessoa simplesmente cria mecanismos para não se permitir viver determinadas coisas novamente.
Já Clara vive uma situação completamente diferente. Ela está em um casamento que não é abusivo, não é tóxico e não tem um grande vilão. É simplesmente um relacionamento que se desgastou.

E eu gostei muito de o filme mostrar isso, nem todo casamento termina porque existe uma pessoa horrível na história. Às vezes, duas pessoas simplesmente se acomodam, deixam de se escolher e permanecem juntas porque parece mais difícil admitir que acabou. E existe uma dificuldade muito específica quando pensamos em mulheres que passaram décadas em um relacionamento: “Eu vou me separar agora? Depois de tantos anos?” O filme trata essa questão com bastante delicadeza. E tudo isso é discutido sem transformar a história em um drama pesado. O humor está presente o tempo inteiro e é, sem dúvida, um dos grandes destaques.
Mônica Martelli e Ingrid Guimarães têm uma comédia muito natural juntas. As piadas entre elas não parecem colocadas ali apenas para provocar risadas. Muitas vezes, é justamente através do humor que conseguimos entender o que as personagens estão sentindo. Elas têm uma dinâmica tão boa que até uma conversa aparentemente banal consegue ser engraçada. E existem alguns momentos em que as situações ficam completamente absurdas, mas eu não me incomodei com isso. Afinal, quem nunca passou por um perrengue na vida que parece impossível de explicar depois? Algumas coisas simplesmente acontecem.
O filme também consegue encontrar um equilíbrio muito bom entre humor e emoção. Existe uma cena, em particular, que me emocionou muito mas não vou contar qual é. Acho que é um daqueles momentos que precisam ser vividos dentro do cinema, sem spoiler.

Visualmente, o filme também é uma delícia, a história passa pelo Rio de Janeiro, Portugal e Espanha, e temos cenários lindíssimos, coloridos e muito bem aproveitados. A viagem não funciona apenas como pano de fundo ela ajuda a criar essa sensação de liberdade e descoberta que acompanha as personagens. E existe algo muito bonito em ver duas mulheres na casa dos 50 anos vivendo, se divertindo, se apaixonando, errando, descobrindo coisas novas e simplesmente sendo jovens de espírito.
Durante muito tempo, a representação da mulher madura no cinema esteve muito ligada à ideia de que determinadas experiências tinham prazo de validade. Minha Melhor Amiga vai na direção contrária. Ele mostra que ainda existe espaço para mudar de ideia, mudar de vida, conhecer alguém, viajar, se descobrir, errar e começar de novo. E acredito que isso possa conversar de uma maneira especialmente forte com mulheres que estão vivendo essa fase da vida. Talvez alguém assista e pense: “Bom, talvez eu também possa.”
Na direção, Susana Garcia faz um trabalho muito cuidadoso. Ela permite que Mônica e Ingrid tenham liberdade para brincar, improvisar e deixar a amizade delas aparecer em cena. Existem momentos em que percebemos as atrizes quase saindo da personagem, e, para mim, isso torna tudo ainda mais especial. O roteiro também consegue trabalhar temas importantes sem transformar o filme em uma palestra sobre amadurecimento. As discussões aparecem dentro das situações e das relações, sempre acompanhadas de humor e leveza.

Meu único porém é a duração. O filme poderia ser um pouco mais enxuto. Algumas cenas poderiam ser encurtadas ou até retiradas, porque em determinados momentos senti que a história se prolongava mais do que precisava. Mas é um problema pequeno diante do conjunto.
É divertido, emocionante, leve e, acima de tudo, muito gostoso de assistir. É um filme sobre amizade, maternidade, amor, envelhecimento e recomeços, mas sem transformar nenhum desses temas em uma sentença. E talvez essa seja a mensagem mais bonita que ele deixa a idade não precisa determinar o que uma mulher pode ou não pode fazer. A vida continua permitindo mudanças, escolhas, descobertas e novos caminhos. No fim, o filme é exatamente isso, um lembrete de que nunca é tarde demais para mudar de vida ou simplesmente mudar de ideia.

