Era Uma Vez Minha 1ª Vez: entre a nostalgia de Thalita Rebouças e uma adaptação que poderia ir além
Tem filme que a gente assiste antes mesmo de apertar o play. Pelo menos emocionalmente.
Foi assim que cheguei à pré-estreia de Era Uma Vez Minha 1ª Vez, novo longa inspirado no livro de Thalita Rebouças.
E talvez eu precise começar essa crítica contando por que esse filme tinha um peso diferente para mim.
Eu cresci lendo Thalita Rebouças. Minha adolescência foi acompanhada pelos livros dela. Desde Fala Sério, Mãe!, fui me apaixonando por aquela escrita leve, divertida e extremamente fácil de consumir. Eu era daquelas leitoras que acompanhavam os lançamentos e que estavam presentes nas sessões de autógrafos que a Thalita fazia em São Paulo.
Tenho, inclusive, registros desses momentos fotos de diferentes fases da minha vida ao lado dos livros e da autora.
Por isso, sentar em uma sala de cinema anos depois para assistir a uma obra de Thalita ganhar uma adaptação para as telas carregava uma expectativa que ia muito além do filme.

Eu queria reencontrar a sensação de ler Thalita.
E é justamente aí que Era Uma Vez Minha 1ª Vez funciona… mas também deixa algumas coisas pelo caminho.
Do livro para o cinema
Uma informação importante para quem conhece a obra original: o filme não é uma reprodução literal do livro.
No livro, Thalita apresenta seis meninas Teresa, Clara, Tuca, Fernanda, Patty e Joana e cada capítulo acompanha uma delas, trazendo diferentes perspectivas, inseguranças, expectativas e experiências.
No cinema, essa estrutura foi modificada. A adaptação concentra a história em quatro meninas: Teresa, Clara, Tuca e Patty.

E isso não é necessariamente um problema.
Cinema e literatura são linguagens diferentes, e uma adaptação precisa fazer escolhas. O ponto é entender se essas escolhas funcionam dentro do filme que foi criado.
Uma história sobre descobertas
O título pode entregar bastante sobre o assunto central da história, mas o filme não precisa ser reduzido a isso.
O que existe por trás da narrativa é uma fase de descobertas, expectativas, inseguranças, amizades e amadurecimento.
E aqui está uma das coisas que mais gostei: o filme não transforma tudo em um drama pesado.

Existe leveza.
Existe humor.
Existe constrangimento.
Existe aquela sensação de que, na adolescência, algumas situações parecem muito maiores do que realmente são.
É um tipo de narrativa que combina com o universo da Thalita.
Mas eu esperava mais.
E aqui entra a parte em que preciso separar a minha paixão pela autora da minha avaliação do filme.

Eu queria gostar mais.
Talvez justamente porque eu conheço a Thalita há tantos anos, eu tenha ido para a sessão esperando encontrar mais daquela sensação que seus livros provocavam em mim.
Aquela leitura gostosa.
Aquele humor espontâneo.
Aquela identificação imediata.
O filme tem esses elementos, mas nem sempre consegue entregar a mesma força.

Algumas situações parecem passar rápido demais e determinados conflitos poderiam ter sido melhor desenvolvidos. Como a história reúne personagens com experiências tão diferentes, existe material para aprofundar relações, sentimentos e consequências e senti falta de um pouco mais disso.
Não significa que o filme seja ruim.
Longe disso.
Ele é leve, divertido e tem momentos que funcionam muito bem.
Mas, para mim, faltou aquele algo a mais que faria a experiência sair do “gostei” para o “esse filme ficou comigo depois que os créditos acabaram”.
A nostalgia ajuda e muito
Talvez quem tenha crescido lendo Thalita tenha uma experiência diferente.

Eu certamente tive.
Porque, em vários momentos, não estava apenas assistindo às personagens. Eu estava lembrando da adolescente que passava horas lendo os livros da autora, acompanhando seus lançamentos e indo às sessões de autógrafos.
E isso dá ao filme uma camada que não está necessariamente na tela.
É uma memória afetiva minha.
Não é o livro que fez parte da minha adolescência. É a Thalita que fez.
Era Uma Vez Minha 1ª Vez foi publicado originalmente em 2011, quando eu já estava saindo dessa fase. Então não seria correto dizer que cresci lendo essa obra especificamente.
Mas cresci lendo a autora que escreveu essa obra.

E talvez seja justamente por isso que assistir ao filme tenha sido tão curioso: eu estava conhecendo uma história dela em uma fase completamente diferente da minha vida.
Para quem é o filme?
Acredito que o longa encontre seu público principalmente entre quem gosta de histórias de amadurecimento e, claro, entre os leitores da Thalita que querem descobrir como essa obra foi reinterpretada para o cinema.
Quem conhece o livro provavelmente vai perceber as diferenças e pode gostar justamente de comparar as duas versões.
Quem não conhece pode entrar na história sem essa bagagem e simplesmente acompanhar as quatro protagonistas.
E para quem, como eu, tem uma relação afetiva com a autora, existe uma recompensa extra: a nostalgia de reencontrar aquele universo que acompanhou tantas pessoas durante a adolescência.
Saí da sessão com sentimentos misturados.

Gostei da leveza, do humor e da proposta de apresentar essa história para uma nova geração. Também gostei de reconhecer alguns elementos daquele universo que sempre fizeram a leitura da Thalita ser tão gostosa.
Mas senti falta de mais profundidade em alguns momentos e de uma conexão emocional mais forte com as personagens.
Talvez minha expectativa também tenha sido maior justamente porque Thalita Rebouças não é uma autora qualquer para mim.
Ela fez parte da minha adolescência.
Eu acompanhei seus livros, seus lançamentos e seus encontros com leitores. E agora tive a oportunidade de assistir a uma história dela chegar ao cinema.
Por isso, minha avaliação precisa considerar as duas coisas: a memória afetiva e o filme que efetivamente assisti.
Era Uma Vez Minha 1ª Vez estreia em 17 de setembro, exclusivamente na Cinemark.

