Pega Essa Dica – Antártida

cinema Cinema Nacional Crítica Cinema filme Pega Essa Dica Pega Essa Novidade

Um suspense congelante com um roteiro genérico.

Em Antártida, a promessa é bastante interessante: uma estação brasileira isolada no meio do continente mais inóspito do planeta, um crime brutal e um grupo de pessoas presas em um ambiente onde ninguém pode simplesmente ir embora. A premissa tinha tudo para render um ótimo suspense de confinamento. O problema é que o filme tenta fazer coisa demais e acaba não desenvolvendo quase nada direito.

Dirigido por Bruno Safadi, com roteiro de Claudia Jouvin, Antártida acompanha a Estação Comandante Diniz, onde cientistas e militares se preparam para enfrentar o inverno extremo. Logo na primeira noite, Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, é vítima de um crime brutal, transformando os homens da estação em potenciais suspeitos. A investigação fica sob responsabilidade da subcomandante Elisabeth, vivida por Andréa Beltrão, enquanto Leandra Leal, Lázaro Ramos, Antonio Calloni, Tatiana Tiburcio, Mariana Sena e João Vitor Silva completam o elenco.

E existe um detalhe importante que ajuda a entender boa parte dos problemas do filme: a história foi originalmente concebida para ser uma série e acabou transformada em longa-metragem. E isso fica bastante evidente na tela. Parece que falta alguma coisa, principalmente no desenvolvimento de personagens e subtramas que poderiam ter recebido mais tempo.

Antártida parece ter material demais para o tempo que possui. São muitos personagens, conflitos, temas e subtramas disputando espaço. O filme quer falar sobre violência contra a mulher, machismo, relações de poder, traumas, investigação criminal, conflitos pessoais, sobrevivência em um ambiente extremo e ainda fazer uma crítica social relacionada aos efeitos climáticos. É assunto demais para pouco tempo de tela.

O resultado é um roteiro genérico, que passeia por elementos conhecidos de diversos thrillers de investigação e histórias de confinamento sem conseguir transformar essas referências em algo realmente original.

E existe ainda um problema que prejudica diretamente o suspense: o próprio filme entrega algumas informações antes da hora. Em vez de deixar determinadas situações acontecerem para surpreender o espectador, a narrativa dá pistas tão explícitas que acaba praticamente antecipando acontecimentos e até destinos de alguns personagens.

Um exemplo é uma brincadeira envolvendo Freddy Krueger. Em determinado momento, um personagem chama o amigo de Freddy Krueger e, posteriormente, esse mesmo personagem acaba morrendo queimado, em uma referência tão óbvia que a comparação deixa de ser apenas uma piada e praticamente funciona como um spoiler do que vai acontecer.

Para um suspense que deveria trabalhar justamente com tensão, descoberta e surpresa, esse tipo de escolha é bastante problemática. O filme parece querer preparar o público para o que vai acontecer, mas acaba entregando a própria surpresa.

Os personagens são outro problema. Temos muita gente na estação, mas poucos conseguem ser realmente desenvolvidos. Algumas relações são apresentadas, determinadas subtramas começam a ganhar importância e, quando percebemos, o filme já precisa correr para resolver tudo. Isso deixa vários arcos com a sensação de que foram apenas iniciados e abandonados.

Os diálogos também são bastante problemáticos. Em alguns momentos, os personagens parecem explicar para o público aquilo que a própria narrativa deveria mostrar. E algumas atuações acabam seguindo esse mesmo caminho: há interpretações que soam teatrais, exageradas e forçadas, prejudicando a naturalidade do suspense.

O ritmo sofre justamente por causa dessa quantidade de informação. O filme precisa apresentar personagens, desenvolver conflitos, conduzir uma investigação e ainda trabalhar todos os temas que pretende discutir. Com pouco mais de uma hora e meia, tudo acontece rápido demais.

E talvez seja justamente aí que fica mais evidente a origem do projeto. O que poderia funcionar melhor em uma série, com tempo para desenvolver personagens e subtramas, parece comprimido para caber em um longa.

Visualmente, porém, Antártida tem méritos. A produção utilizou tecnologia Unreal Engine nos Estúdios Globo para construir virtualmente boa parte dos ambientes da Antártida, criando uma escala visual interessante e ajudando a transmitir o isolamento da estação.

O elenco também é um dos grandes atrativos, reunindo nomes como Andréa Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa e Lázaro Ramos. Mas mesmo um elenco forte fica limitado quando o roteiro não oferece material suficiente para desenvolver seus personagens.

O filme ainda teve a responsabilidade de abrir o 54º Festival de Cinema de Gramado, em sessão hors concours, reforçando a ambição de apresentar um suspense brasileiro de grande escala.

Antártida tinha uma premissa excelente, uma produção tecnicamente interessante e um elenco de peso. O problema é que tenta falar sobre tudo ao mesmo tempo e acaba não aprofundando quase nada.Roteiro genérico, excesso de assuntos, personagens pouco desenvolvidos, subtramas que não recebem o devido espaço, diálogos artificiais, ritmo irregular, algumas atuações teatrais e forçadas e, para completar, um suspense que em determinados momentos entrega o próprio jogo antes da hora.

No fim, fica a sensação de que estamos vendo uma série inteira comprimida dentro de um filme de pouco mais de uma hora e meia.

Uma ideia interessante que acabou congelada por um roteiro que queria fazer muito, mas não teve tempo ou espaço para desenvolver tudo.