A Ilha Esquecida nos leva por uma jornada de memórias

Não sei vocês, mas, para mim, fica claro que o gênero de animação vem passando por uma drástica reformulação nos últimos anos. Desde Homem-Aranha no Aranhaverso, lançado em 2018 e dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, apresentar ao mundo seu estilo de animação que mesclava 3D e 2D, com desenhos feitos à mão, e revolucionar a indústria, ficou para trás a visão de que todo filme tinha que ser aquele 3D hiper-realista popularizado principalmente pela Pixar. Cada vez mais, realizadores e estúdios vêm tentando explorar novas fronteiras com o gênero. Ano passado, vimos Guerreiras do K-Pop, de Maggie Kang e Chris Appelhans, furar a bolha do gênero e se tornar um fenômeno global. Mas, se você perguntar qual é a minha animação favorita dessa década, dessa nova leva, eu vou te dizer, sem pensar duas vezes: Gato de Botas 2: O Último Pedido.
Intenso, emocionante e visualmente deslumbrante, a aventura aborda questões como mortalidade, abandono e ansiedade de uma maneira ímpar e colocou a DreamWorks de volta no mapa. Se você me perguntar qual é o diferencial do estúdio em relação à Pixar ou à Disney, é a sua acidez. Permitam-me elaborar: enquanto a Pixar passou boa parte de sua trajetória criando histórias mais intimistas, a DreamWorks era ácida, focando na comédia, na ação e na desconstrução dos arquétipos de contos de fadas. Por que toda essa introdução? E por que focar em Gato de Botas 2? Bom, porque os diretores Joel Crawford e Januel Mercado, responsáveis pelo longa, retornam para o mais novo projeto, A Ilha Esquecida.
O novo longa é uma jornada através daquilo que talvez seja o aspecto mais humano de todos: nossas lembranças. Em vez de abordar esse tema de maneira literal, A Ilha Esquecida usa sua ambientação para refletir sobre o quanto nossas cicatrizes fazem parte de quem somos e como todos esses momentos ganham um novo brilho quando compartilhados com quem amamos.

Jo (H.E.R) e Raissa (Liza Soberano) são melhores amigas desde a infância. Recém-formadas no ensino médio, o mundo de Jo vira de cabeça para baixo quando ela descobre que Raissa irá estudar nos Estados Unidos. Em sua última noite de comemoração juntas, as duas descobrem a entrada para a mítica Ilha de Nakali, um lugar repleto de seres fantásticos, magia e ameaças à espreita. Agora, seus laços serão colocados à prova quando descobrem que, para conseguirem retornar para casa, o preço pode ser alto demais.
Em longas com uma amizade no centro de sua narrativa, o maior desafio é, com certeza, tornar essa relação crível. A Ilha Esquecida faz isso já em sua primeira cena. Jo e Raissa vêm de mundos completamente distintos, e sua conexão se torna poderosa justamente em decorrência disso. A solidão de Jo e a pressão enfrentada por Raissa encontram paz quando estão juntas. O filme tira seu tempo para mostrar que, sozinhos, não somos capazes de voar.
A dinâmica das duas é complementada por Raww (Dave Franco), um cachorro/lobisomem azarado que serve como guia para nossas protagonistas. E vamos direto ao ponto: visualmente, o longa é, sem sombra de dúvidas, a animação mais deslumbrante de 2026 até agora. É visível que a equipe estava à vontade e livre para expressar todas as suas ideias e ambições.

Nakali é difícil de descrever. É como se Pandora encontrasse a mente de uma criança. Cada criatura, cada cenário parece ter saído diretamente da imaginação infantil. Todas as criaturas são visualmente cativantes e desafiam noções e regras já estabelecidas para seres mágicos, como uma vampira gigante que consegue separar o torso das pernas para continuar uma perseguição frenética. Nada é o que parece e, a cada cena, o longa apresenta uma surpresa visual diferente. Ao mesmo tempo que essa variedade visual é o maior acerto do longa, ela também traz um problema que acaba indo além do filme em si: A Ilha Esquecida é um filme difícil de vender.
Veja bem, eu não culpo você, meu caro leitor, por não saber que a DreamWorks estava lançando um novo longa no mês de setembro. Todos os trailers divulgados até o momento parecem não saber em qual aspecto focar e pouco conseguem transmitir o que torna o filme interessante. Um deles, inclusive, revela um plot twist que só é apresentado no início do terceiro ato.
Isso acontece porque o filme é consideravelmente sobrecarregado. Apesar de a amizade de Jo e Raissa ser o centro de toda a duração, o estabelecimento da ilha, do elenco secundário e da ameaça principal não acontece de imediato. O filme toma seu tempo em praticamente todos os seus aspectos, e isso faz com que seja um projeto que eu imagino que muitos podem julgar pela primeira vista, sem compreender exatamente o que ele está tentando construir.

Todos nós já enfrentamos dores, traumas e perdas que, em algum momento, desejamos esquecer. O filme então nos faz uma pergunta simples, mas poderosa: são apenas os momentos felizes que fazem nossa vida valer a pena? Está em cada choro, cada sorriso e cada batalha enfrentada que nossas memórias habitam. E é justamente por isso que o filme nos convida a olhar para trás e lembrar da jornada que nos tornou quem somos.
A Ilha Esquecida é uma aventura deslumbrante e divertida sobre nossas memórias, sobre a magia escondida em cada momento e sobre a importância de lembrar daqueles que estiveram ao nosso lado durante a caminhada. Mais do que uma aventura fantástica, é um filme sobre aquilo que escolhemos carregar conosco.
E, para mim, é mais uma prova de que existe algo muito especial acontecendo na DreamWorks. Um filme que me enche de esperança sobre o futuro do estúdio nos cinemas e, principalmente, sobre as histórias que ainda podem nos fazer sonhar.
