Um elenco de peso e deixou falhar.
Unabomber não é de todo ruim, mas é um filme que deixa aquela sensação de que poderia ter sido muito mais. A produção tinha nas mãos uma história real extremamente rica, complexa e que atravessou décadas, mas escolhe contar tudo de uma maneira que nem sempre funciona. Existe uma boa ideia por trás do filme, boas atuações e momentos realmente interessantes, porém o roteiro parece ter dificuldade em organizar todas essas informações e entregar ao público uma narrativa clara e envolvente.
O filme acompanha Ted Kaczynski, um jovem prodígio que entra em Harvard ainda adolescente e acaba participando de experimentos psicológicos conduzidos pelo professor Henry Murray. Décadas depois, Kaczynski se transforma no homem conhecido como Unabomber, responsável por uma campanha de atentados que durou quase duas décadas e matou três pessoas e feriu outras 23. Paralelamente, acompanhamos a investigação do FBI para descobrir quem está por trás dos ataques e chegar até ele.

A escolha de contar essa história através de duas linhas temporais é interessante, mas também é um dos maiores problemas do filme. De um lado temos o jovem Ted em Harvard, no final dos anos 1950 e início dos anos 1960, tentando se encaixar em um ambiente no qual claramente não se sente pertencente. Do outro, estamos nos anos 1990, acompanhando a enorme investigação do FBI que tenta identificar o Unabomber. O problema é que o filme não deixa isso tão claro desde o começo, e durante um bom tempo é fácil ficar confuso tentando entender em que momento da história estamos e como aquelas situações estão relacionadas. Só depois de algum tempo o espectador começa a perceber melhor a proposta e a ligação entre as duas narrativas.
E é justamente aí que o filme poderia ter sido muito mais elaborado. A história real do Unabomber oferece material suficiente para uma produção muito mais ampla. Foram quase duas décadas de atentados, investigações, pistas falsas e tentativas de identificar o responsável. O filme, porém, não consegue transmitir completamente a dimensão dessa caçada. Em vez de mostrar com mais detalhes os diferentes atentados e como eles foram mudando ao longo dos anos, grande parte desse período acaba sendo resumida, fazendo com que a passagem do tempo pareça menor do que realmente foi.
O roteiro também deixa algumas informações importantes pouco claras. Para quem já conhece a história de Ted Kaczynski, é possível preencher algumas lacunas, mas para quem está conhecendo o caso através do filme, determinadas situações podem gerar dúvidas. A relação entre Kaczynski e Henry Murray, por exemplo, é utilizada como uma das principais peças para construir a transformação do personagem, mas o próprio filme trabalha com uma versão dramatizada dessa relação. Kaczynski realmente participou dos experimentos conduzidos por Murray em Harvard, porém não existem evidências de que todos os acontecimentos e confrontos apresentados entre os dois tenham ocorrido daquela maneira.

Outro ponto interessante é a investigação do FBI. A produção cria a personagem Joanne Miller, interpretada por Shailene Woodley, como uma porta de entrada para essa parte da história. A personagem é fictícia, mas a investigação que o filme apresenta é baseada na caçada real ao Unabomber. O roteiro utiliza a análise do manifesto de Kaczynski como uma das peças fundamentais para chegar até sua identidade, algo que realmente teve importância na investigação.
As atuações são, sem dúvida, um dos pontos altos. Russell Crowe entrega presença e consegue tornar Henry Murray um personagem bastante interessante, principalmente nos momentos em que o filme explora os experimentos psicológicos. Mas é Jacob Tremblay quem chama mais atenção. É muito interessante vê-lo crescido e assumindo um papel completamente diferente daqueles que marcaram o início de sua carreira, quando ainda era criança. Quem acompanhou sua trajetória desde filmes como O Quarto de Jack e Extraordinário consegue perceber essa mudança. Aqui, ele precisa interpretar um personagem muito mais complexo, reservado e perturbador, e consegue transmitir bem essa transformação.
O problema é que o próprio filme parece não saber exatamente qual história quer contar. É uma cinebiografia sobre Ted Kaczynski? É um suspense sobre a investigação do FBI? É uma história sobre os experimentos psicológicos de Henry Murray? É uma tentativa de explicar como um jovem extremamente inteligente acabou se tornando um criminoso responsável por atentados durante décadas? A produção tenta trabalhar com todas essas possibilidades ao mesmo tempo, mas acaba deixando algumas delas pouco desenvolvidas.

Ainda assim, existe mérito na tentativa de mostrar que a transformação de Kaczynski não aconteceu de uma hora para outra. O filme procura apresentar sua juventude, seu isolamento, sua relação com o ambiente acadêmico e os experimentos aos quais foi submetido como elementos que ajudam a entender sua trajetória. Isso, obviamente, não justifica os crimes cometidos por ele, e a própria produção deixa essa separação clara. O interesse está em tentar compreender quais experiências e ideias contribuíram para a formação daquele personagem.
No fim, Unabomber é um filme que funciona em alguns momentos, principalmente pelas atuações e pela história real que serve como base, mas falha justamente em aproveitar todo o potencial desse material. A quantidade de acontecimentos importantes é enorme, e a produção acaba simplificando demais uma história que poderia render um filme muito mais completo, principalmente se tivesse explorado melhor os atentados, a passagem das décadas e o trabalho do FBI para chegar até Kaczynski.
Não é um filme ruim, mas também está longe de ser a produção definitiva sobre o caso. Ele apresenta uma história fascinante, porém conta essa história de uma maneira que pode confundir, deixa algumas informações sem o devido desenvolvimento e faz o espectador perceber apenas aos poucos o que realmente está acontecendo. No final, ficam as boas atuações e a sensação de que havia material para fazer algo muito maior.

