A Conspiração Condor, dirigido por André Sturm, é um longa nacional que se apoia em um dos períodos mais delicados da história do Brasil a ditadura militar. A narrativa se inicia em 1976, com a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek em um acidente de carro e, meses depois, com a morte de João Goulart, oficialmente por um ataque cardíaco. Esses acontecimentos despertam desconfiança na jornalista Silvana, interpretada por Mel Lisboa, que passa a investigar a possibilidade de uma conspiração por trás dessas tragédias.
Embora os personagens centrais sejam fictícios, o filme se ancora em eventos reais, criando uma narrativa que instiga o espectador a refletir e se tudo isso tivesse sido, de fato, articulado? Ainda que não busquem convencer, o longa provoca curiosidade e convida o público a revisitar esse período histórico, inclusive fora da tela.

Um dos pontos fortes do filme está na construção de contexto. Ao retratar o ambiente de um jornal durante a ditadura, a obra evidencia discussões sobre censura e controle da informação inclusive com a presença de figuras diretamente ligadas ao governo para filtrar conteúdos. Esse pano de fundo ajuda a situar o espectador e reforça o clima de tensão política da época.
No entanto, essa tentativa de contextualização acaba, em certos momentos, se tornando excessivamente didática. Há uma sensação de que o filme “mastiga” informações, como se subestimasse o conhecimento do público. Essa repetição também se reflete na condução da investigação teorias são reforçadas diversas vezes, elementos visuais se repetem, e a narrativa, que deveria ganhar complexidade, por vezes se torna redundante.

A trilha sonora também merece destaque, mas de forma negativa. Apesar de possivelmente dialogar com a época retratada, ela acaba criando um tom por vezes novelesco, o que dificulta a imersão e enfraquece a tensão que a história pede.
Por outro lado, o filme acerta em aspectos técnicos importantes. O uso de lentes grande-angulares contribui para aumentar a sensação de desconforto em determinadas cenas, enquanto o figurino ajuda a construir com eficiência a identidade visual dos anos 1970. O elenco é outro ponto positivo. Mel Lisboa conduz bem a complexidade crescente de sua personagem, enquanto a participação de Pedro Bial adiciona peso à narrativa, com cenas marcantes e bem construídas.

Mesmo com suas falhas, A Conspiração Condor é um projeto ambicioso e relevante. Ao abordar uma ferida ainda sensível na história brasileira, o filme cumpre um papel importante ao provocar questionamentos e manter viva a discussão. Trata-se de uma obra interessante, com boas ideias e momentos fortes, ainda que, em alguns trechos, se perca na repetição e na simplificação excessiva. No fim, é um filme que exige certa paciência, mas que vale a atenção especialmente pela sua proposta e pelo contexto que traz à tona.

