A Vida Secreta de Meus Três Homens, dirigido por Letícia Simões, parte de uma pergunta central como o Brasil chegou onde está hoje? Para tentar responder a essa questão, três fantasmas do passado retornam e revelam algumas das feridas históricas do país.
Fernando é um pai de família boêmio e conservador que colaborou com a ditadura militar. Arnaud é um jovem militante que se envolveu com um grupo de justiceiros. Já Sebastião é um fotógrafo gay e negro que perdeu o amor da sua vida. A partir das histórias desses três homens, o longa constrói ao mesmo tempo um retrato e uma espécie de fábula sobre a identidade nacional e sobre o confronto do Brasil com seu passado e com suas estruturas de violência.

O filme tem uma forte pegada teatral. Aos poucos, conhecemos os segredos desses três homens, e o que funciona como fio condutor entre eles é justamente a presença desses segredos familiares: o avô que integrou o bando de Lampião; o pai que foi delator do SNI, contribuindo com a ditadura militar; e o padrinho que escondeu sua homossexualidade, tendo amado a vítima de um crime homofóbico.
A narrativa se divide em três partes, uma para cada personagem. Atores e atrizes encarnam essas figuras que de fato existiram, e é interessante observar como cada um conta sua própria história. O texto do filme, inclusive, é muito bem escrito e sustenta essas memórias com bastante força.
A diretora também traz para esses personagens as imagens que tinha das pessoas de sua vida. Em sua visão, por exemplo, o avô possuía uma força feminina, e em uma cena quase poética ele aparece usando um vestido. Esse detalhe, no entanto, não é aprofundado depois. Estamos no domínio das impressões, mais do que dos fatos. Trata-se de um filme sobre o olhar da autora para esses três homens.

O momento mais pesado para mim foi, sem dúvida, a conversa com o pai, que teria atuado como delator do SNI. A própria diretora diz que não há como comprovar totalmente essa história, mas demonstra ter bastante convicção sobre o que aconteceu. O mais triste e ao mesmo tempo interessante é perceber como ele manipula a conversa. Quando ela questiona sua posição como pai, ele responde apenas que fez o que precisava ser feito, com muita certeza disso. Para uma filha progressista, ouvir algo assim é profundamente triste e frustrante.
Dos três relatos, o mais teatral é o do padrinho. Ele utiliza a palavra “bicha” diversas vezes e a pronuncia com orgulho. Em sua fala, reafirma uma identidade que, naquela época, era muito mais perigosa de assumir do que hoje, embora ainda estejamos longe de um cenário ideal. Há também uma performance muito marcada: a voz efeminada, o sorriso ao final de cada frase e o olhar de sedução direcionado à câmera.
No fim das contas, o filme funciona quase como um teatro filmado. Ainda assim, como cinema, tem um impacto grande, principalmente pelo foco nas expressões dos personagens e pela forma como a câmera conduz essas histórias.

De certa forma, o longa também é importante porque nos faz revisitar momentos dolorosos da história do Brasil. E lembrar dessas feridas é fundamental para que elas não se repitam.
O texto é muito bom e as atuações são ótimas. Ainda assim, tive certa dificuldade em me prender completamente à narrativa. Em alguns momentos, tive a sensação de que tudo fica um pouco solto. Como estamos falando de momentos muito sensíveis da história brasileira, senti falta de um posicionamento um pouco mais forte talvez de mais confronto. As histórias despertam muitos questionamentos em nós, como público, mas poderiam ter sido exploradas de maneira ainda mais elaborada e provocadora.

