Dirigido por Quentin Tarantino, Kill Bill conta a história de A Noiva, interpretada por Uma Thurman, uma assassina altamente treinada que integrava um grupo de matadores liderado por Bill, composto majoritariamente por mulheres letais. Grávida e decidida a abandonar a vida de violência, ela tenta recomeçar e se casar. No entanto, no dia da cerimônia, seus antigos companheiros a traem brutalmente, deixando-a à beira da morte. Após cinco anos em coma, A Noiva desperta sem o bebê e com todas as ilusões destruídas. Movida por dor e fúria, ela traça uma lista de vingança e parte em busca das cinco pessoas responsáveis por arruinar seu futuro.

Assistir Kill Bill: Volume 1 e Kill Bill: Volume 2 pela primeira vez ainda mais nessa versão exibida no cinema, unindo os dois filmes com cenas inéditas foi uma experiência intensa. Impressionante, sem dúvida. Mas também profundamente incômoda. No quesito qualidade, é um filme excelente. Direção segura, estética marcante, elenco impecável. Mas, para mim, foi uma experiência difícil. É um filme pesado. Violento. Agoniante. E acredito que não seja confortável para ninguém.

Como era minha primeira vez assistindo, tudo era inédito. Todos os plot twists me pegaram de surpresa. Fiquei chocada, tensa, ansiosa. É um filme que realmente te imerge em você. A divisão em capítulos ajuda muito na compreensão. São muitos personagens, muitas camadas, novas figuras surgindo o tempo todo, e essa estrutura organizada na medida do possível. Especialmente porque estamos falando de uma trama movida por vingança, onde cada nome carrega uma história, uma traição, uma dor.
Particularmente, gostei mais do primeiro volume. Acho mais dinâmico, visualmente mais impactante. A fotografia é linda, o uso das cores é impressionante. Tudo é vibrante, forte, estilizado e ao mesmo tempo coerente. O figurino no Volume 1 é marcante, muito bem pensado. Cada cena fica gravada na memória.

Já o segundo volume é mais introspectivo. Ele responde perguntas que o primeiro deixa no ar. Tem diálogos excelentes, profundidade emocional, mais sensibilidade. É ali que mergulhamos de fato nos personagens.A jornada da Noiva interpretada de forma espetacular por Uma Thurman é impactante. A força dela é absurda. E ao mesmo tempo existe uma fragilidade muito humana, principalmente quando o tema da maternidade entra em cena. Essa dualidade entre força e sensibilidade é um dos pontos mais interessantes do filme.

Mas é impossível falar da obra sem falar da violência. Para mim, foi extremamente pesada. Especialmente as cenas no hospital e a sequência do caixão no segundo volume, inclusive, me causou ansiedade física. Faltou ar. É angustiante.
A violência contra a mulher é brutal. Nada justifica assassinatos, claro. Mas conforme entendemos a dor da personagem, entendemos a motivação da vingança. Isso não transforma o que ela faz em algo certo mas muda a forma como enxergamos.
Existe um pé no trash, sim. O exagero do sangue claramente artificial, os banhos de vermelho, as situações absurdas, personagens que sobrevivem ao impossível. As referências ao kung fu dos anos 70, o mestre caricato, a estilização extrema tudo isso é proposital. É a assinatura de Quentin Tarantino. E dentro da proposta estética do filme, funciona.

As lutas são muito bem coreografadas. Dramáticas, exageradas, quase operísticas. Nada é contido. Tudo é extremo dor extrema, raiva extrema, amor extremo. A trilha sonora é um dos pontos altos. A música que toca quando a Noiva identifica sua próxima vítima aquele foco no olhar é simplesmente arrebatadora. O assobio da enfermeira é arrepiante. As sequências em animação são bizarramente incríveis. Fortes, impactantes, violentas mas brilhantes na forma como constroem a origem de uma personagem. Talvez em live action fosse igualmente chocante, mas a animação dá uma dimensão quase mítica àquela dor.
Os dois volumes funcionam juntos. O primeiro é impacto visual, ação, choque. O segundo é profundidade, diálogo e emoção. É um clássico. Um filme que mistura estilos, que exige entrega do espectador. São quatro horas e meia você precisa estar disposto. Precisa gostar do estilo. Não é um filme confortável.
Para mim, a violência é excessiva. Mas dentro do conceito da obra, ela faz sentido. É exagero consciente. É sobre vingança. Sobre uma mulher ferida. Sobre até onde alguém é capaz de ir quando tudo lhe foi tirado.

