Pega Essa Dica – Abre Alas

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Abre Alas, longa dirigido por Ursula Rösele, reúne sete mulheres entre 53 e 85 anos em um mesmo espaço para partilharem suas histórias de vida. O documentário se apoia na força da escuta: suas falas, seus silêncios, seus gestos tudo é matéria-prima para transformar vivências muitas vezes marcadas por dor em expressão artística.

A proposta central do filme é simples e profunda: permitir que essas mulheres ocupem um lugar de fala que durante décadas lhes foi negado. São histórias atravessadas por violência, preconceito, solidão, invisibilidade e experiências traumáticas mas também por resistência, reinvenção e pela possibilidade de existir com plenitude na maturidade.

Entre elas, conhecemos Walkíria, mulher trans de 60 anos, que revela ter se sentido autorizada a ser quem é somente ao sair de casa. Ela carrega marcas de violências e incompreensões que infelizmente ainda fazem parte da realidade de muitas pessoas trans. Seu depoimento é de extrema importância, pois reafirma que, apesar de tudo, há caminhos de reconstrução e força.

Silvana, que trabalhou como empregada doméstica, teve seus estudos interrompidos e dedicou tantos anos apenas à sobrevivência que só agora, mais velha, consegue olhar para si mesma com cuidado e reconhecimento. Sheila revisita uma tragédia familiar que transformou dor em força mas não em um sentido romantizado. O filme deixa claro o peso real desse sofrimento, recusando qualquer simplificação do processo.

Regina, vítima de maus-tratos dos pais adotivos, encontrou a liberdade plena apenas após a viuvez. Hoje, ela vive um momento em que finalmente pode experimentar a vida com autonomia. Lorena, também mulher trans, teve a rara experiência de crescer em uma família amorosa, mas enfrentou suas próprias dificuldades econômicas, que a levaram à prostituição. Ainda assim, ela destaca o acolhimento como parte essencial da sua trajetória.

E Heloisa traz um dos relatos mais emocionantes do filme: a perda de sua filha para a depressão um tema doloroso e urgente, profundamente presente em nossa sociedade.

Esse breve resumo não captura a intensidade do que se vê em tela. Cada depoimento carrega uma presença, um corpo, uma memória. Ursula Rösele constrói um filme que equilibra com delicadeza o real e o simbólico, transformando a criação coletiva em um processo de cura.

Abre Alas não é apenas sobre as histórias dessas mulheres é sobre o espaço que finalmente se abre para que elas possam contá-las.