Pega Essa Dica – A Voz de Hind Rajab

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Ambientado em Gaza, A Voz de Hind Rajab, dirigido por Kaouther Ben Hania, reconstrói os acontecimentos que levaram à morte de Hind Rajab, uma criança de 6 anos que perdeu a vida durante uma tentativa de fuga com sua família em meio aos ataques israelenses. Após o carro em que estavam ser atingido, Hind permaneceu presa no veículo e passou horas ao telefone com voluntários do Crescente Vermelho, implorando por ajuda enquanto aguardava um resgate que nunca chegou.

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O filme dramatiza esse episódio a partir de registros reais das ligações feitas pela menina e das comunicações da equipe humanitária, revelando os obstáculos impostos à atuação dos socorristas em uma zona de conflito marcada por violência e burocracia. Ao acompanhar a corrida contra o tempo para salvar Hind, o longa expõe não apenas uma tragédia individual, mas também um sistema que impede o acesso à ajuda humanitária e transforma procedimentos em sentenças de morte.


É uma história extremamente pesada e justamente por isso, necessária. O uso dos áudios reais transforma o filme em algo quase insuportável de assistir. O desespero é palpável, a burocracia é sufocante, e a consciência de que tudo aquilo aconteceu de verdade torna a experiência ainda mais angustiante. É, sem exagero, uma das coisas mais desesperadoras que já assisti.
Desde já, é impossível não elogiar o elenco: todos entregam performances fortes, emocionais e profundamente humanas. O desespero que vemos em cena não é algo que se possa controlar; em algum momento, a humanidade grita ao menos para aqueles que ainda tentam salvar vidas. Já os que atacam, na minha opinião, se comportam como criaturas horríveis, desprovidas de qualquer traço de humanidade.

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O filme se passa praticamente em um único cenário: um escritório. A ambientação é limitada, mas isso nunca se torna um problema. Estamos tão envolvidos nas ligações que o instinto é um só querer salvar aquela menininha. A limitação espacial não cansa; pelo contrário, intensifica a tensão. Mesmo que os diálogos repetitivos não soam excessivos, eles se tornam desesperadores. Em uma situação como aquela, é compreensível a existência de protocolos, mas ouvir as mesmas perguntas sendo feitas repetidamente a uma criança dá nos nervos. A única coisa que consegui pensar foi no tempo que estava sendo perdido.


O longa também intercala imagens reais das consequências desse massacre, o que torna tudo ainda mais difícil de absorver. A forma como o filme é conduzido com planos fechados e uma câmera que nunca dá espaço para alívio mantém o nervosismo à flor da pele. Vemos pessoas no escritório tentando ajudar da maneira que podem, mas a sensação que fica, para quem assiste, é a de que nada está sendo feito. Racionalmente, sabemos que um resgate precisa de planejamento, mas emocionalmente é impossível não sentir frustração. No fim, vidas foram perdidas, e o filme nos faz assistir à frustração vinda de todos os lados. Os obstáculos enfrentados durante o resgate e as ligações são tão angustiantes que é fácil esquecer, por alguns instantes, que aquilo tudo é real até que a realidade nos atinge com força total.


O filme deixa claro o massacre causado pelo exército israelense. A família de Hind foi atacada enquanto deixava o bairro de Tel al-Hawa, na Cidade de Gaza, seguindo ordens do próprio exército sionista. O governo de Netanyahu impôs um protocolo kafkiano aos serviços de resgate palestinos, que precisam da aprovação dos militares invasores para qualquer tentativa de socorro. Esse processo envolve definir rotas, aguardar autorização e passar por intermediários em cada etapa levando horas. Ignorar essas formalidades praticamente garante que os socorristas também sejam atacados.
Nesse contexto, é impossível não sentir raiva, mas também é importante olhar com cuidado para figuras como Mahdi, o supervisor. Confesso que, emocionalmente, eu estava muito mais alinhada ao sentimento de Omar. Ainda assim, Mahdi segue os regulamentos porque sabe que eles também existem para tentar proteger os socorristas. Ele não é um vilão. Ele se importa, tenta manter a cabeça fria e consegue fazer isso por muito tempo. Esses protocolos existem, ao menos na teoria, para oferecer o máximo de segurança possível a quem tenta salvar vidas, ainda que o risco continue sendo enorme. Entender isso racionalmente é difícil, principalmente enquanto ouvimos uma criança implorando por ajuda.

Responsabilizar indivíduos como Mahdi não só é injusto como também desvia o foco dos verdadeiros responsáveis por essa tragédia: genocidas que, em um ato extremo de cinismo, utilizam a tragédia de seus próprios antepassados como escudo.
Não é spoiler dizer que não existe um final feliz. É impossível. O filme trata o destino da criança com cuidado e respeito, mas ainda assim é revoltante. Os soldados israelenses sabiam que havia uma criança dentro do carro, eles eram capazes de vê-la a olho nu e com equipamentos de visão infravermelha. Isso não os impediu de atirar novamente contra o veículo, aproveitando para também executar os dois socorristas que, finalmente, tentaram resgatá-la com autorização oficial.
No fim, A Voz de Hind Rajab é um filme extremamente necessário. O processo de assisti-lo é doloroso, angustiante e revoltante, mas ele precisa ser visto e, principalmente, falado. Talvez não seja a solução para colocar um fim nessas atrocidades, mas dar vida a esse filme já é, por si só, um ato de coragem imenso.