Pega Essa Dica – Ao sabor das cinzas

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Dirigido por Tarciano Valério, A Sabor das Cinzas acompanha as irmãs Bethânia e Laura, que se reencontram diante de uma urgência familiar e embarcam em uma viagem pelas estradas do Agreste em busca do corpo do pai, seu Lauro. Paralelamente, Isadora, filha de Bethânia, edita um documentário com arquivos da família, em um processo que promete reescrever a história de todos.

Acredito que, já pela sinopse, conseguimos perceber que estamos diante de uma história pesada e complicada de assistir. O filme aborda assuntos delicados, carrega uma forte carga emocional e apresenta situações perturbadoras. Entretanto, existe um contraste entre a gravidade dos temas e o tom novelesco que a narrativa assume em determinados momentos. Para mim, isso acaba diminuindo o impacto de algumas situações que poderiam ser muito mais fortes.

O filme começa construindo a imagem de um Natal feliz, com uma família aparentemente unida e harmoniosa. É praticamente o único momento em que temos contato com essa felicidade, porque a narrativa não demora a revelar os podres que existem por trás daquela fachada. Aos poucos, conforme a história avança, descobrimos mais sobre aquelas pessoas, suas contradições e seus segredos. E, a cada nova revelação, a percepção que construímos inicialmente sobre aquela família vai sendo desconstruída. Afinal, estamos falando de pessoas que construíram uma imagem que, no fim das contas, estava muito distante da realidade.

Apesar de a sinopse dar destaque a Bethânia e Laura, senti que as duas têm uma participação pequena no filme. Isso me incomodou porque acredito que a história poderia explorar muito mais a relação entre as irmãs, especialmente diante de tudo o que elas estão descobrindo sobre a própria família. Em contrapartida, temos algumas cenas com os dois responsáveis por transportar o corpo de seu Lauro que, para mim, se prolongam mais do que deveriam. Entendo a função dessas passagens e a tentativa de inserir um pouco de humor, especialmente com as situações envolvendo o espírito do falecido, mas achei que algumas delas acabam desviando a atenção do que realmente importa. Eu teria preferido que esse tempo fosse dedicado ao desenvolvimento das irmãs e dos conflitos familiares.

Ainda assim, o filme apresenta personagens com várias camadas. É verdade que, por ser uma obra curta, não existe tempo para aprofundar todas elas, mas a construção de seu Lauro me chamou bastante a atenção. Inicialmente, temos uma determinada percepção sobre ele, mas, conforme a narrativa avança, descobrimos uma figura completamente diferente, muito mais tenebrosa e perturbadora do que imaginávamos. É interessante como o filme brinca com as aparências e apresenta paralelos que podem ser associados à nossa própria realidade.

E preciso dizer que, apesar das ressalvas, fui ficando cada vez mais surpresa com a história. Quanto mais o filme avançava, mais fortes se tornavam as revelações e mais intrigante ficava o caminho até o desfecho. A narrativa trabalha com metáforas relacionadas à morte, ao cigarro, à ética e à decência, construindo reflexões que vão ganhando outros significados à medida que compreendemos melhor o que está acontecendo. A ideia por trás do desfecho é, para mim, um dos pontos mais interessantes do filme.

Outro aspecto de que gostei bastante foi a fotografia. A iluminação mais escura não me pareceu uma escolha puramente estética, como se o filme precisasse ser visualmente dark para transmitir sua atmosfera. Pelo contrário existe uma escuridão que parece natural àqueles ambientes, como se o lado sombrio fizesse parte daquela família e estivesse presente em sua própria estrutura. Essa escolha contribui para a sensação de desconforto e combina com os segredos que vão sendo revelados.

Por outro lado, senti falta de um desenvolvimento maior de algumas questões. A trajetória de Isadora, por exemplo, deixa lacunas gostaria de entender melhor como ela chegou a determinadas descobertas e de que maneira reuniu as informações que aparecem no documentário. Algumas coisas ficam soltas, e não senti que essas perguntas em aberto contribuíram necessariamente para a experiência. Para mim, são questões que poderiam ter sido respondidas se o roteiro dedicasse mais tempo a elas, em vez de investir em determinadas cenas que pouco acrescentam à narrativa.

No fim, é um filme que tem uma ideia muito boa, personagens cheios de possibilidades e um desfecho que provoca reflexão, mas que nem sempre consegue explorar todo o potencial da própria história