Pega Essa Dica – Apolo

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Apolo, documentário dirigido por Tainá Müller e Isis Broken, acompanha a jornada profundamente humana de Isis Broken e Lourenzo Gabriel, um casal trans que enfrenta, diariamente, a violência estrutural do país que ainda lidera o ranking mundial de assassinatos contra pessoas trans. Em meio a esse cenário brutal, a narrativa ganha um novo e inesperado capítulo quando, durante a pandemia de COVID-19, o casal descobre uma gravidez concebida de forma natural um acontecimento que desafia preconceitos, desmonta estigmas e reafirma a potência de suas existências. O filme revela, com sensibilidade e precisão, a luta deles por um pré-natal inclusivo, respeitoso e especializado, enquanto resistem ao ódio e reivindicam o direito mais básico de todos viver e construir uma família com dignidade.

O documentário apresenta uma estética simples, quase minimalista, mas é justamente nessa simplicidade que ele encontra força. O foco central é, sem dúvida, o amor um amor que se desdobra em várias camadas e revela a intimidade, a vulnerabilidade e a potência de um casal trans vivendo a expectativa da chegada de um filho.

Ao mesmo tempo, o filme não se esquiva de mostrar a violência e a transfobia que pessoas trans ainda enfrentam no Brasil. Esse contraste entre a delicadeza da gestação e a dureza da realidade social cria um campo de reflexão muito importante entender as camadas das experiências vividas pelo casal ao longo da gravidez é também entender o que significa existir e resistir enquanto pessoa trans no país.

O documentário ilumina essa discussão de forma sensível e necessária. Ao mesclar a ternura de uma nova vida com as tensões estruturais que atravessam essas famílias, ele abre espaço para um debate urgente sobre direitos, respeito e humanidade. É uma obra que não apenas emociona, mas que convida o espectador a repensar olhares, preconceitos e silêncios.

Com seus 82 minutos de duração, a narrativa vai além da gestação ela se aprofunda na relação do casal com suas próprias famílias, revisitando histórias, afetos e até memórias que pareciam adormecidas na infância mas que retornam com o frescor provocado pela expectativa dessa nova chegada. Essa costura entre um “antes”, muitas vezes presente apenas nas entrelinhas, e o “presente” vivido diante da câmera, constrói uma narrativa intimista e ao mesmo tempo corajosa. O filme se permite mergulhar nos silêncios, nos detalhes do cotidiano e nos conflitos internos, revelando camadas emocionais que tocam profundamente o espectador.

No desfecho, o documentário se revela como uma homenagem à nova vida que chega e, ao mesmo tempo, à resistência cotidiana dessa família que enfrenta o preconceito sem perder de vista aquilo que realmente os sustenta. É um presente ao espectador, que é convidado a refletir sobre muitas camadas da experiência humana, mas sobretudo a perceber que, apesar de todas as dificuldades, é o amor que dá estrutura e sentido a essa jornada.

Essa potência precisa ser reconhecida, não como uma forma de romantização, mas como um lembrete necessário mesmo em meio à violência e à intolerância, existem histórias que florescem, resistem e afirmam a beleza da existência. O filme honra essa verdade com delicadeza e coragem.