Dirigido por Ramon de Jesus e produzido pela Kaleidoscópio Filmes, Como Se Fosse um Filme é um documentário delicado e profundamente humano, que encontra na trajetória de Lindsay, uma mulher trans de 47 anos que vive na cidade de São Paulo, um poderoso retrato sobre identidade, arte e pertencimento.

Muito além de um registro biográfico, o longa utiliza o cinema como linguagem e metáfora para reconstruir memórias e refletir sobre a experiência de existir em uma sociedade que ainda impõe inúmeros obstáculos à população trans. Ao longo do documentário, Lindsay compartilha suas experiências pessoais e profissionais, revelando uma trajetória marcada pela busca por reconhecimento e pela resistência diante do preconceito.
Desde a infância, ela conta que sempre foi apaixonada pelas artes e sonhava em trabalhar com cinema ou teatro. Gostava de desenhar e confeccionar roupas para bonecas, mas enfrentou a repressão da família, que via esses interesses como inadequados. Essas experiências deixaram marcas profundas e influenciaram seus caminhos profissionais, levando-a a trabalhar em uma livraria e no telemarketing antes de encontrar sua verdadeira vocação.

Há mais de 25 anos atuando como cabeleireira, profissão que surgiu por influência de um ex namorado, Lindsay também relembra as dificuldades enfrentadas no mercado de trabalho. Mesmo após conquistar uma oportunidade em um renomado salão dos Jardins, em São Paulo, precisou lidar com a discriminação de clientes que se recusavam a ser atendidos por ela por conta de sua identidade de gênero. O documentário também revela aspectos mais íntimos de sua rotina, como o carinho por seus animais de estimação, incluindo uma chinchila chamada Diego e um pug idoso, detalhes que aproximam ainda mais o público de sua humanidade.
Lindsay conduz a narrativa com sinceridade e sensibilidade, compartilhando sonhos, desafios e conquistas sem recorrer ao sensacionalismo. Sua paixão pelo cinema torna cada lembrança ainda mais significativa, aproximando o espectador de sua visão de mundo.

A direção de Ramon de Jesus demonstra sensibilidade ao permitir que a protagonista ocupe o centro da narrativa. Em vez de impor discursos ou interpretações, o documentário abre espaço para que a própria Lindsay conte sua história. Essa escolha fortalece a autenticidade da obra e faz com que cada relato carregue um peso emocional genuíno.
Visualmente, a produção aposta em uma linguagem intimista, valorizando os depoimentos e as emoções acima de qualquer artifício estético. No entanto, a duração de aproximadamente 55 minutos pode tornar a experiência um pouco cansativa para parte do público, justamente pela ausência de uma narrativa mais dinâmica. O documentário se apoia quase integralmente nos relatos da protagonista e poderia se beneficiar de uma maior variedade de recursos visuais, como fotografias, imagens de arquivo e vídeos que ilustrassem momentos importantes de sua trajetória.

Faz falta, por exemplo, a inclusão de registros de sua participação no Popstars Masculino e de sua passagem pelo programa Ídolos, da Record. Também seria interessante incluir sua participação no projeto da CAIS, que resultou em um documentário e em um calendário de mulheres e homens trans, em 2017, ao lado da hoje deputada Erika Hilton. Esses momentos são importantes em sua trajetória e enriqueceriam ainda mais a narrativa, oferecendo um panorama mais completo de sua atuação artística e de sua representatividade.
Ainda assim, o maior mérito de Como Se Fosse um Filme está justamente em sua humanidade. O documentário não reduz sua protagonista à sua identidade de gênero, mas apresenta uma artista, uma cinéfila e uma pessoa repleta de sonhos, desejos e memórias. Ao fazer isso, amplia o debate sobre representatividade de maneira natural e respeitosa.

Como Se Fosse um Filme emociona justamente por sua simplicidade. É um documentário que encontra força nas pequenas lembranças, nos silêncios e na sinceridade de sua protagonista. Embora pudesse explorar melhor recursos audiovisuais para enriquecer sua narrativa, entrega um relato sensível sobre resistência, representatividade e a importância de ocupar espaços, tanto na arte quanto na sociedade.
O documentário está disponível gratuitamente no canal da Kaleidoscópio Filmes no YouTube e merece ser assistido por quem busca conhecer a trajetória de Lindsay e refletir sobre temas como identidade, arte, memória e representatividade.
Link do Doc. https://www.youtube.com/watch?v=nYro23EXmqY

