Pega Essa Dica – Copan

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Imagine se pudéssemos nos transformar em um inseto por alguns minutos e atravessar as janelas e colunas de um edifício, observando a rotina e a vida de seus moradores: um ilusionista, um DJ e até uma criadora de conteúdo digital. Quem são essas pessoas? Do que vivem? Como foram parar ali? Essas são algumas das perguntas que permanecem em aberto em Copan, documentário que apresenta o cotidiano de seus habitantes e o funcionamento interno do prédio, mas nos deixa apenas como observadores passageiros, como se fôssemos, de fato, um inseto que pousou ali por alguns instantes. Dirigido por Carine Wallauer, o documentário acompanha a rotina de moradores e trabalhadores de um dos edifícios residenciais mais icônicos do Brasil, localizado no centro de São Paulo. Projetado por Oscar Niemeyer na década de 1950 e inaugurado em 1966, o Copan é famoso por sua arquitetura sinuosa e por abrigar cerca de 5 mil pessoas em seus 1.160 apartamentos, funcionando como uma verdadeira cidade vertical. Mas como representar a história de um dos maiores cartões-postais paulistanos em apenas um documentário?

A resposta encontrada por Wallauer é mostrar muito sobre o cotidiano de quem vive ali, mas, paradoxalmente, revelar pouco sobre o próprio edifício. A principal linha narrativa acompanha a eleição para a sindicatura do condomínio. O candidato, no entanto, não é exatamente uma novidade: trata-se do síndico que ocupa o cargo há mais de três décadas. A disputa, marcada pela ausência de concorrentes e pela insatisfação de parte dos moradores, evidencia discussões sobre representatividade e desigualdade. Um dos temas mais debatidos é o peso dos votos na assembleia, calculado de acordo com a metragem dos apartamentos. Na prática, unidades maiores exercem maior influência nas decisões do condomínio, refletindo, em certa medida, as desigualdades socioeconômicas que atravessam a sociedade brasileira. Paralelamente, o filme incorpora o contexto das eleições presidenciais de 2022, período em que foi gravado. Ao estabelecer um diálogo entre a política nacional e a dinâmica interna do Copan, o documentário transforma o edifício em uma metáfora do Brasil contemporâneo: um espaço marcado pela diversidade, pelos conflitos de classe e pela convivência entre visões de mundo distintas.

Visualmente, o longa impressiona. A fotografia, assinada pela própria Carine Wallauer, valoriza tanto a imponência da fachada ondulada que recorta a paisagem paulistana quanto a intimidade dos espaços internos. A câmera percorre assembleias, corredores, cozinhas, elevadores, garagens e áreas comerciais, registrando conversas cotidianas que revelam a complexidade daquele universo. É especialmente interessante observar como o pano de fundo político do país se manifesta na realidade do edifício, sobretudo no terceiro ato, ambientado no dia 30 de outubro de 2022, data do segundo turno das eleições presidenciais. A câmera acompanha manifestações de diferentes posicionamentos políticos, televisores ligados à cobertura jornalística e conversas espontâneas entre vizinhos e funcionários sobre o futuro do país. O resultado é um retrato singular de como diferentes opiniões coexistem dentro de uma comunidade com mais de 5 mil moradores.

No entanto, o principal problema do documentário está justamente na falta de aprofundamento das histórias apresentadas. Somos apresentados a uma grande diversidade de personagens, com trajetórias e realidades distintas, mas muitos deles desaparecem da narrativa após poucas cenas. Fica a sensação de que gostaríamos de conhecer melhor essas pessoas: entender suas origens, seus sonhos, suas profissões e os motivos que as levaram a escolher o Copan como lar. A ausência de um olhar mais aprofundado também se estende ao próprio edifício. Embora o filme utilize o Copan como cenário e metáfora social, pouco explora sua importância histórica, cultural e arquitetônica. Considerando a grandiosidade do tema, um dos maiores símbolos da arquitetura modernista brasileira, projetado por Oscar Niemeyer e reconhecido como um marco habitacional de São Paulo, causa estranhamento que aspectos fundamentais de sua trajetória e de seu legado fiquem em segundo plano.

Ao optar por uma abordagem essencialmente observacional, sem entrevistas explicativas ou contextualizações históricas mais robustas, Carine Wallauer privilegia a experiência sensorial e cotidiana em detrimento da investigação histórica. No fim das contas, Copan é um documentário interessante para conhecer parte da rotina dos moradores e trabalhadores desse edifício que se tornou um símbolo da cidade de São Paulo e do próprio país. É uma oportunidade de apreciar a beleza de seus espaços, revisitar o cenário político de 2022 e acompanhar como a eleição para síndico do condomínio reflete, em escala reduzida, as disputas de poder, as desigualdades e as tensões políticas presentes no Brasil contemporâneo, embora permaneça a sensação de que havia espaço para ir além, aprofundando as histórias dos personagens e explorando com mais riqueza a importância simbólica, cultural, social e arquitetônica do Copan.