Corre pra lá, corre pra cá, mas afinal, que bicho é esse? Corrida dos Bichos é um filme que parece estar constantemente com pressa. Tudo acontece de maneira acelerada, sem tempo para a história respirar, apresentar seus personagens ou explicar direito o universo que está construindo.

Em um futuro marcado por um desastre ambiental, o tradicional jogo do bicho ganha uma versão brutal. Pessoas de classes menos favorecidas são transformadas nos chamados “Bichos” e obrigadas a participar de uma corrida mortal, enquanto milionários apostam e acompanham tudo como entretenimento. Mano, interpretado por Matheus Abreu, entra nessa competição em busca de uma forma de salvar a irmã.
Visualmente, o filme impressiona. O Rio de Janeiro aparece completamente transformado, com uma estética distópica que lembra Mad Max. É uma produção que mostra a capacidade técnica do cinema nacional para construir um universo de ficção científica de grande escala, com bons cenários, efeitos e uma identidade visual interessante.
O longa é dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, com roteiro de Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento, Ernesto Solis e Filipe Valerim. São três diretores e quatro roteiristas para uma história que parece ter informação demais e desenvolvimento de menos.

E talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores problemas de Corrida dos Bichos. O filme é uma verdadeira farofa. São muitos personagens, muitas histórias paralelas e uma quantidade enorme de participações especiais. Em determinados momentos, parece mais um desfile de famosos do que uma história realmente preocupada em desenvolver seus personagens. Chega a lembrar um especial de fim de ano da Globo.
E o pior é saber que Fernando Meirelles, diretor do elogiado Central do Brasil, está entre os responsáveis pela direção. Corrida dos Bichos mostra que o cinema nacional tem capacidade técnica para fazer uma produção desse tamanho, mas também deixa claro que uma grande estrutura não é suficiente quando o roteiro não consegue organizar todas as ideias.
Tudo acontece rápido demais. Não existe tempo para entender as regras daquele universo, conhecer os personagens ou compreender de verdade o que está acontecendo. São cenas atrás de cenas, pessoas correndo, gritando e usando máscaras, enquanto o espectador tenta juntar as peças.

E as referências são muito evidentes. Jogos Vorazes é a principal delas, tanto pela estrutura da competição mortal quanto pela ideia de pessoas menos favorecidas sendo colocadas para lutar enquanto uma elite acompanha tudo como entretenimento. Também existem elementos que remetem a The Running Man e Mad Max. Ter referências não é um problema, mas quando a produção se apoia tanto em fórmulas já conhecidas, a falta de originalidade acaba enfraquecendo ainda mais o roteiro.
A ideia de misturar uma ficção científica distópica com o jogo do bicho e elementos da cultura brasileira é muito boa. O próprio Rio de Janeiro reconstruído como esse cenário devastado é um dos maiores acertos do filme. O problema é que o roteiro não consegue explorar todo o potencial dessa premissa.
Um dos momentos mais ridículos acontece em uma cena envolvendo Rodrigo Santoro e Grazi Massafera, que faz referência à personagem de Grazi na novela Três Graças. É aquele tipo de referência que parece colocada apenas para o público reconhecer. Gente, não precisava disso.

O filme também passa constantemente a sensação de estar faltando alguma coisa. É corrido, parece cortado e dá a impressão de que existe uma história muito maior por trás de tudo. Em vários momentos, parece até que Corrida dos Bichos foi pensado ou gravado para funcionar como uma série e, por algum motivo, acabou transformado em um filme de duas horas. Isso prejudica diretamente o desenvolvimento do enredo e dos personagens.
E o elenco é cheio de nomes muito bons. Matheus Abreu, Rodrigo Santoro, Ísis Valverde, Bruno Gagliasso, Grazi Massafera, Seu Jorge, Anitta, João Guilherme, Silvero Pereira, Leandro Firmino, Thainá Duarte, Azzy e Jéssica Córes fazem parte da produção. Mesmo assim, tantos bons atores não conseguem salvar um roteiro que não dá espaço suficiente para que seus personagens sejam desenvolvidos.

No fim, Corrida dos Bichos impressiona pelo tamanho da produção e pelo visual, mas decepciona justamente no elemento que deveria sustentar tudo isso: a história. Existe uma boa ideia, existe potencial e existe capacidade técnica, mas falta equilíbrio.
O cinema nacional já mostrou que consegue fazer muito mais do que o filme entrega aqui. Corrida dos Bichos tinha potencial para ser uma grande ficção científica brasileira, mas acaba sendo uma mistura acelerada de referências, personagens e ideias que nunca conseguem se desenvolver de verdade.
Corrida dos Bichos está disponível no Prime Video.

