Eu, Meu Pai e um Bebê (Daddy Issues) é a nova série britânica que será exibida pelo canal Filmelier+. Aqui temos uma comédia que passa longe do tradicional, apostando principalmente na dinâmica entre seus protagonistas. A série é estrelada por Aimee Lou Wood e David Morrissey, e acompanha a relação entre um pai e uma filha que vivem em constante conflito principalmente porque o pai é um adulto pouco funcional, emocionalmente instável e com atitudes quase adolescentes, enquanto a filha, apesar de também ser desorganizada, parece carregar um pouco mais de senso de responsabilidade do que ele.

Acompanhamos Gemma, uma jovem na faixa dos 20 anos que leva uma vida completamente bagunçada: sem planos concretos para o futuro, com uma rotina instável e relações casuais. É um tipo de personagem que já conhecemos bem, quase um estereótipo dentro desse gênero, mas Aimee Lou Wood consegue trazer frescor e autenticidade. Gemma é carismática, imperfeita e humana. A atriz equilibra humor, ironia e fragilidade emocional de um jeito que faz a gente se conectar com ela, mesmo quando suas decisões são claramente questionáveis.
Tivemos acesso aos dois primeiros episódios, então essa crítica se baseia apenas nesse início. Logo de cara, Gemma descobre que está grávida, e esse acontecimento vira uma espécie de gatilho para tudo além da preocupação óbvia com a gravidez, ela precisa lidar com seu pai, um homem divorciado, solitário e que claramente não sabe fazer escolhas inteligentes. Ele enxerga essa gravidez como uma oportunidade de reparação, quase como se pudesse “consertar” a própria vida através da filha e do futuro bebê.

A série trabalha bem temas como expectativas frustradas, ressentimentos antigos e problemas mal resolvidos. Existe uma tentativa de reconexão entre pai e filha que é estranha, desconfortável e muitas vezes até irritante mas justamente por isso parece real.
O ponto mais forte da série, sem dúvida, é a química entre os protagonistas. A história em si, pelo menos nesses primeiros episódios, ainda não prende tanto, mas a relação entre eles sustenta o interesse. O contraste geracional e emocional é grande, e os dois atores conseguem entregar isso sem recorrer a exageros na atuação. A série tem sim seus momentos mais exagerados, mas eles vêm mais da construção das situações do que da interpretação dos personagens.

O humor é constante e aparece principalmente nos diálogos, mas preciso ser sincera não é exatamente o tipo de comédia que funciona comigo o tempo todo. Algumas piadas parecem mais forçadas e outras simplesmente não têm o impacto esperado. Ainda assim, eu gosto da forma como o roteiro, apesar de apostar no humor, não ignora a carga emocional da história. Existe uma preocupação em construir uma relação entre pai e filha que vai além da comédia.
Inclusive, algumas piadas acabam perdendo força porque o ambiente da série, visualmente e emocionalmente, já é um caos. É difícil rir de certas situações quando tudo ao redor parece estar desmoronando não é impossível, claro, mas é aquele tipo de humor que depende muito do espectador e da forma como cada um lida com desconforto.

O que fica evidente nesses dois episódios é que Daddy Issues não quer ser uma comédia leve ou “fofinha”. Ela é ácida, constrangedora em alguns momentos e cheia de situações que parecem sair do controle a qualquer instante. E talvez seja exatamente aí que está o charme a série não tenta maquiar seus personagens, ela apresenta pessoas falhas, imaturas e quebradas, tentando viver com o que têm.
No fim, mesmo que a narrativa ainda esteja se estabelecendo, a série consegue despertar curiosidade pelo desenvolvimento dessa relação e pelo que Gemma vai fazer diante da gravidez. Se o roteiro conseguir equilibrar melhor o ritmo e aprofundar mais as camadas emocionais sem depender tanto das piadas, existe potencial para ser uma história bem mais interessante do que parece à primeira vista.
Por enquanto, Eu, Meu Pai e um Bebê funciona mais como uma série que chama atenção pelo elenco e pela dinâmica entre os personagens do que pela trama em si mas é um começo promissor, principalmente para quem gosta de comédias com um toque de drama e desconforto emocional.

