Pega Essa Dica- Jeanne Dielman

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Dirigido por Chantal Akerman, Jeanne Dielman, acompanha três dias na vida de Jeanne, uma mulher jovem, mas já viúva, que vive com o filho adolescente. Sua existência é marcada por uma rotina quase mecânica: preparar refeições, limpar a casa, cuidar dos pequenos detalhes do lar. Enquanto o filho está na escola, Jeanne complementa a renda se prostituindo discretamente, dentro de seu próprio apartamento. Ao longo do filme, a repetição dos gestos cotidianos vai se tornando sufocante. A mínima alteração nessa rotina controlada revela fissuras profundas em sua vida, conduzindo a personagem a um desfecho tão inesperado quanto trágico.

Antes de qualquer coisa, é preciso deixar um aviso: Jeanne Dielman tem 3 horas e 18 minutos de duração. Esse tempo não é um excesso gratuito, mas sim parte essencial do propósito do filme. Chantal Akerman nos coloca dentro da rotina exaustiva de Jeanne e, junto com ela, sentimos o peso do tédio e do desespero. Logo na primeira hora já entendemos a proposta: acompanhar cada gesto doméstico em sua repetição quase mecânica. Mas a diretora insiste em levar o público ao limite, como a própria Jeanne é levada por sua busca obsessiva em fazer tudo com perfeição. Ela se movimenta como um robô, e qualquer deslize mínimo até esquecer de apagar uma luz soa como um sinal de que algo está errado. Esse é um cinema de detalhes. Nele, aparentemente não acontece nada; a grande revelação está nos pequenos desvios. A duração e a lentidão são um conceito em si, e é justamente isso que causa incômodo. É preciso disposição para encarar a experiência, porque embora o filme tenha propósito, a jornada até ele é longa e maçante.

Os planos do filme são sempre fixos não há movimentação de câmera, e essa imobilidade nos cansa na mesma medida em que Jeanne parece cansada de sua própria vida. Outro aspecto interessante é a forma como a cenografia e o figurino reforçam a sensação de aprisionamento no tempo. Jeanne se veste e se comporta como uma dona de casa da década de 1950, mesmo que a narrativa se passe entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970. Essa defasagem fica ainda mais evidente quando ela sai às ruas os figurantes exibem roupas e penteados modernos, enquanto mulheres de idade próxima à dela já adotaram estilos dos anos 1960. Jeanne, por sua vez, permanece inalterada, quase congelada em um papel doméstico clássico que não lhe permite mudança. Ao longo do filme inteiro, essa discrepância cria uma expectativa silenciosa em algum momento, ela vai surtar.

Durante o filme, acompanhamos longas cenas praticamente sem cortes de ações cotidianas: limpar a banheira, arrumar a cama, cozinhar batatas, preparar o café, limpar os sapatos do filho… e assim por diante. São tarefas banais, mas que Akerman transforma em cine-experiência. Hoje, influenciadores mostram rotinas domésticas como lifestyle, quase sempre de forma glamourosa. Jeanne, no entanto, mostra essas atividades de maneira realista e entediante, exatamente como elas são no dia a dia.

No fim, Jeanne Dielman é, sem dúvida, um filme com propósito mas extremamente cansativo de se assistir. É um clássico cult, destinado a espectadores que estejam realmente dispostos a entrar na rotina da personagem. Nem podemos chamar de “história” no sentido convencional, não há enredo tradicional, tudo se revela através das excelentes atuações e da observação meticulosa do cotidiano. Na época de seu lançamento, em 1975, o filme provavelmente causou impacto e debates, e é fácil imaginar o choque que sua abordagem radical poderia gerar. Hoje, a experiência é diferente, ainda é poderoso, mas claramente voltado para um público muito específico, paciente e atento aos detalhes. Para quem busca narrativa convencional ou clímax emocional, pode ser desafiador.

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