Pega Essa Dica – O Bosque Selvagem

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O Bosque Selvagem, animação em stop motion dirigida por Travis Knight, é um épico mágico e fantástico que consegue fazer algo que nem sempre é simples em uma animação contar uma história para diferentes idades sem subestimar nenhuma delas. É um filme que emociona, diverte, provoca reflexão e, principalmente, confia na capacidade do espectador de acompanhar temas mais complexos.

A história acompanha Prue McKeel, uma garota de 13 anos que precisa embarcar em uma jornada perigosa para recuperar seu irmão mais novo, Mac, sequestrado por uma horda de corvos e levado para além dos limites de Portland, para um lugar que ninguém deveria conhecer. Determinada a encontrá-lo, Prue se aventura na floresta ao lado de Curtis, seu colega de classe e amigo, atravessando um universo mágico habitado por animais falantes, criaturas estranhas, bandidos, figuras misteriosas e forças que nem sempre têm boas intenções.

Prue está naquela fase agridoce em que a infância começa a parecer pequena demais, mas a adolescência ainda não chegou por completo. Ela tem pressa de crescer e, justamente por isso, começa a abandonar algumas das coisas que associava à infância entre elas, a própria crença na magia. E é muito interessante acompanhar como essa jornada funciona também como uma espécie de redescoberta. Para salvar o irmão, ela precisa se permitir acreditar novamente no impossível.

Existe uma coragem quase imprudente na maneira como Prue enfrenta tudo o que aparece em seu caminho. E talvez seja justamente isso que torne a personagem tão interessante ela ainda é uma criança, mas já quer tomar decisões como uma adulta. Ela acredita em si mesma, é determinada, obstinada e não espera que alguém apareça para resolver seus problemas. Ao mesmo tempo, ainda está aprendendo que coragem não significa não ter medo e que crescer também envolve reconhecer os próprios limites.

É uma história de amadurecimento, mas sem transformar o amadurecimento em algo necessariamente bonito ou fácil. O filme entende que existe uma certa dor em deixar a infância para trás.

E, enquanto Prue representa esse movimento de crescimento, Alexandra, a governadora do reino, funciona como um contraponto muito mais sombrio. É uma personagem marcada por um luto profundo e não elaborado. Sua dor a transforma, pouco a pouco, em alguém cruel, e talvez uma das coisas mais interessantes do filme seja justamente não transformar essa personagem em uma vilã simplesmente má. Nós entendemos por que ela chegou onde chegou.

Isso não significa justificar suas atitudes muito pelo contrário. O que ela faz é cruel e causa sofrimento a outras pessoas. Mas existe uma motivação por trás de suas escolhas, e ela nasce de uma dor muito humana a incapacidade de aceitar uma perda. Alexandra está tão desesperada para recuperar aquilo que perdeu que começa a ultrapassar qualquer limite. E quanto mais ela tenta fugir da própria dor, mais dor provoca nos outros.

É uma representação muito interessante do luto não curado e de como ele pode deformar uma pessoa quando ela não consegue lidar com aquilo que sente. E talvez seja justamente por isso que a personagem seja tão complexa. Mesmo depois de tudo, existe nela uma consciência, uma humanidade e, em algum lugar muito profundo, uma bondade que não desapareceu completamente. Ela apenas foi soterrada pelo desejo desesperado de recuperar o que perdeu. 

O Bosque Selvagem consegue trabalhar diversos temas ao mesmo tempo crescimento, infância, perda, luto, amor, sacrifício, família, coragem e pertencimento sem parecer que está tentando marcar uma lista de assuntos importantes. O roteiro consegue desenvolver cada um deles dentro da própria história, fazendo com que os temas estejam ligados às decisões dos personagens.

E isso também aparece nos diálogos. Eles conseguem ser profundos quando precisam ser, mas não esquecem que estamos acompanhando uma protagonista de 13 anos. Existe humor, existem piadas, existe uma leveza própria dessa idade. O filme não tenta transformar seus personagens infantis em adultos falando frases excessivamente filosóficas o tempo inteiro. Ele entende que ainda estamos falando de crianças e pré-adolescentes, e isso deixa a narrativa muito mais natural. Outro ponto que me chamou bastante atenção foi a coragem do filme em tomar decisões difíceis.

Por ser uma animação, existe uma expectativa de que determinadas coisas não vão acontecer. Afinal, “é para crianças”. Mas O Bosque Selvagem não parece ter medo de tratar seu público como alguém capaz de lidar com perdas e consequências. Existem personagens que morrem, existem situações dolorosas e acontecimentos que realmente têm peso dentro da história. O filme não protege o espectador simplesmente porque está trabalhando com uma animação.

Essas escolhas tornam aquele universo mais real. As coisas têm consequências. As pessoas podem ser perdidas. Nem tudo pode ser resolvido magicamente. E, ao mesmo tempo, o filme consegue fazer isso sem perder sua essência de conto de fadas.

É impossível não destacar o trabalho de stop motion, a animação é simplesmente maravilhosa. Existem momentos em que o nível de detalhamento é tão grande que algumas cenas chegam a parecer extremamente realistas e digo isso como um elogio. O filme consegue trazer humanidade para dentro daqueles bonecos. Você percebe sentimentos nos olhos dos personagens, nos pequenos movimentos, nas expressões e na maneira como eles reagem às situações.

A textura é um espetáculo à parte. O cabelo, as roupas, os animais, os cenários, as árvores, a vegetação, os objetos e todos os pequenos elementos daquele mundo parecem ter sido construídos para serem tocados. Existe uma materialidade muito forte na animação. Você olha para a tela e quase consegue imaginar a textura da floresta.

Os animais falam, existem criaturas mágicas e acontecimentos que pertencem claramente ao campo da fantasia. Ainda assim, o trabalho visual é tão cuidadoso que o filme consegue fazer você acreditar naquele mundo. Você não fica pensando “isso é impossível”. Você simplesmente aceita aquelas regras e entra na história.

A floresta não é apenas um cenário bonito. Ela é parte essencial da experiência. Os ambientes são grandiosos, cheios de detalhes e conseguem transmitir diferentes sensações conforme a narrativa avança. É um daqueles filmes em que existe algo acontecendo visualmente mesmo quando você não está prestando atenção diretamente naquele elemento. E no cinema isso fica ainda mais evidente. É uma animação que realmente enche os olhos.

Também acho muito interessante como o filme consegue equilibrar beleza e estranheza. Nem tudo naquele universo foi feito para ser bonito ou confortável. Existem figuras sombrias, criaturas ameaçadoras e situações bastante macabras. Mas mesmo nesses momentos existe uma delicadeza na construção visual. O roteiro também merece destaque pela quantidade de personagens que consegue administrar. São muitos personagens inseridos ao longo da história, mas o filme consegue fazer com que eles tenham identidade e função dentro daquele universo. Você consegue entender quem são, qual é a importância deles e, principalmente, lembrar deles.

Nada parece simplesmente jogado no meio da história para ser esquecido depois. Os acontecimentos vão encontrando suas consequências e os personagens vão tendo seus arcos encerrados de maneira satisfatória. Para uma animação com mais de duas horas de duração e um universo tão grande, conseguir manter esse controle narrativo é um mérito enorme.

Você fica tão investido naquele universo, tão interessado no que vai acontecer com aqueles personagens, que as mais de duas horas passam sem aquela sensação de que o filme poderia ter sido menor. Existe espaço para a história respirar, para os personagens serem desenvolvidos e para o mundo ser explorado.

O Bosque Selvagem é, no fim das contas, uma história sobre crescer. Sobre descobrir que o mundo é muito maior do que aquilo que conhecemos quando somos crianças. Sobre perceber que algumas coisas que pareciam impossíveis podem existir e que outras coisas que pareciam simples podem ser muito mais dolorosas do que imaginávamos. É também uma história sobre o que fazemos com a nossa dor.

Prue aprende a crescer sem abandonar completamente aquilo que existe de mágico dentro dela. Alexandra, por outro lado, representa o que pode acontecer quando alguém se recusa a aceitar uma perda e permite que essa dor tome todas as decisões por ela. É uma animação que consegue ser emocionante sem ser excessivamente sentimental, engraçada sem quebrar seus momentos mais sérios e fantástica sem deixar de ser humana.

O Bosque Selvagem é uma animação linda, sensível, corajosa e visualmente impressionante. É o tipo de filme que pode ser visto por crianças mais velhas, especialmente aquelas próximas da idade da protagonista, mas que também oferece muito para um público adulto. Crianças muito pequenas provavelmente não terão a mesma compreensão de todas as camadas da história, mas, para quem já está começando a entender essa passagem entre infância e adolescência ou para quem já passou por ela, existe muito para encontrar aqui. É uma história sobre infância, amadurecimento, amor, perda e sobre a coragem necessária para seguir em frente quando aquilo que mais queremos é voltar no tempo.