Pega Essa Dica – O Primata

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Grotescamente divertido

O longa se inspira levemente em um caso real ocorrido nos Estados Unidos, o do chimpanzé Travis, referência que adiciona uma camada inquietante à narrativa, ainda que explorada de forma superficial.

O filme tem várias referências a produções dos anos 80 e 90, principalmente Cujo, de Stephen King, no qual um cachorro que era amigo da família contrai raiva e se transforma em uma máquina de matar. Aqui, o papel da ameaça é ocupado por um chimpanzé.

A trama acompanha Lucy, uma universitária que retorna para casa durante as férias e aproveita a ausência do pai para organizar uma festa na piscina. O clima de celebração é brutalmente interrompido quando o chimpanzé de estimação da família surge irreconhecível e extremamente agressivo, contaminado pela raiva. A partir desse momento, o encontro se transforma em um pesadelo sangrento, forçando os jovens a buscarem desesperadamente uma forma de escapar da fúria incontrolável do animal.

Dirigido por Johannes Roberts, de Medo Profundo, cineasta conhecido por transformar animais em forças de terror, o filme repete um problema recorrente de sua carreira ao trabalhar com um elenco jovem que cumpre apenas o básico, mesmo quando os personagens carecem de profundidade. Ainda assim, a sequência de abertura se impõe como o ponto alto da obra. Brutal, gráfica e desconfortável, ela expõe de forma explícita a mutilação de um veterinário e estabelece uma promessa clara ao espectador.

Troy Kotsur, vencedor do Oscar, interpreta o pai da família, um personagem surdo, e entrega uma atuação que se destaca dentro do filme. Alguns dos momentos mais intensos e emocionalmente impactantes surgem justamente a partir de sua deficiência. Ao adotar o ponto de vista do personagem, o filme mergulha o espectador em um completo silêncio, recurso que amplia a tensão e torna a experiência ainda mais angustiante.

O Primata parece disposto a tratar sua ameaça com seriedade, encarando o chimpanzé como o que ele realmente é, um animal absurdamente forte, imprevisível e letal fora de seu habitat natural. Infelizmente, essa promessa não se sustenta ao longo da narrativa.

A violência no longa é gráfica, exagerada e, por vezes, grotescamente divertida. Membros são arrancados, ossos se quebram e gritos ecoam por corredores de vidro, compondo uma crueza que remete ao cinema exploitation e abraça o absurdo como linguagem. Em alguns momentos, o próprio chimpanzé Ben se comunica com humanos por meio de um aplicativo de voz, detalhe de humor sombrio que reforça o tom quase insano da proposta. Os efeitos práticos e visuais garantem ao animal uma presença física convincente, ao mesmo tempo real e monstruosa, como se a natureza assumisse o papel de vilã em um conto de horror.

Mesmo sem ambições de prestígio crítico, O Primata entende perfeitamente seu público. O filme entrega exatamente o que promete, um carnaval de violência animal, nostalgia do terror oitentista e uma energia quase punk. Trata-se de um espetáculo feroz, exagerado e consciente do próprio ridículo, o que o torna curiosamente sedutor. Ainda assim, acaba se juntando à longa lista de produções de terror que começam com força, mas se contentam em repetir fórmulas já desgastadas. Ele ruge alto em seus primeiros minutos, mas termina domesticado demais para deixar marcas duradouras. Um macaco feroz, sim, porém uma obra que ironicamente nunca se permite sair da jaula do óbvio.

Com apenas 89 minutos, o longa aposta em um ritmo acelerado que mantém a tensão constante do início ao fim. A direção é de Johannes Roberts, com distribuição nos cinemas pela Paramount Pictures.