O Rei da Internet, dirigido por Fabrício Bittar, é um filme que mergulha em uma história real e, ao mesmo tempo, extremamente provocadora. Inspirado na vida de Daniel Nascimento, o longa acompanha a ascensão de um adolescente que se tornou um dos hackers mais conhecidos do Brasil, construindo uma trajetória marcada por golpes, dinheiro fácil e uma relação perigosa com o poder que a internet pode oferecer.
Interpretado por João Guilherme, Daniel é apresentado como um jovem que começou cedo nesse universo, ainda aos 14 anos, aprendendo sozinho sobre códigos e sistemas até transformar isso em algo que rapidamente saiu do controle. Antes mesmo dos 17 anos, ele já estava envolvido em esquemas milionários, vivendo uma rotina de ostentação e sendo alvo de operações da Polícia Federal. A narrativa acompanha esse percurso de forma quase biográfica, focando tanto no início quanto nas consequências de suas escolhas.

O grande diferencial do filme está na forma como essa história é contada. Apesar de lidar com temas pesados como crimes digitais, manipulação, corrupção e violência o tom adotado é surpreendentemente leve e, em muitos momentos, até bem-humorado. Essa escolha não é aleatória, a história é construída a partir do ponto de vista de um adolescente, o que naturalmente traz uma camada de glamourização para o que está sendo mostrado. Existe uma romantização do crime, mas ela faz sentido dentro da lógica do personagem, que enxerga naquele estilo de vida uma alternativa ao caminho duro e regrado do pai.
Esse contraste familiar, inclusive, é um dos elementos mais interessantes do filme. De um lado, um pai que construiu sua vida com esforço e disciplina do outro, um filho que descobre uma forma rápida e aparentemente fácil de ganhar dinheiro. A partir daí, o filme levanta uma provocação importante até que ponto o crime “compensa”? E mais do que isso, como esse tipo de discurso pode impactar jovens que ainda estão formando sua visão de mundo?
Ambientado no início dos anos 2000, o longa também trabalha muito bem a construção de época. A internet discada, a espera para se conectar, os downloads demorados e referências como o MSN ajudam a criar um cenário que, para quem viveu esse período, carrega uma forte carga nostálgica. Ao mesmo tempo, essa ambientação reforça a ideia de um momento em que a internet ainda era um território em expansão e, portanto, cheio de brechas.

Visualmente, o filme aposta em uma fotografia mais escura, que dialoga com esse universo digital e clandestino. Não é necessariamente uma estética marcante e sofisticada, mas funciona dentro da proposta. O figurino cumpre seu papel ao situar o espectador na época, ainda que sem grandes destaques. Por outro lado, a cenografia e a direção de arte se sobressaem, com atenção aos detalhes pôsteres, objetos e ambientações que ajudam a construir esse universo de forma convincente. A trilha sonora também contribui para essa imersão, reforçando o clima da época.
O roteiro é um dos pontos fortes da produção. A narrativa é bem estruturada, conduzindo o espectador de forma clara por todos os acontecimentos, sem deixar pontas soltas. Tudo é explicado de maneira acessível, o que faz sentido diante da quantidade de personagens e da complexidade das ações retratadas. Além disso, o filme utiliza recursos visuais que ajudam a tornar esse universo mais compreensível e dinâmico.
As atuações também merecem destaque. João Guilherme entrega um trabalho consistente e, em vários momentos, convincente, conseguindo sustentar a complexidade de um personagem carismático, mas moralmente questionável. Mesmo sem transmitir totalmente a ideia de um adolescente de 15 anos, sua performance surpreende positivamente, especialmente para quem o acompanhou em trabalhos anteriores mais leves. Já Marcelo Serrado se destaca como uma figura do crime que, apesar de suas ações, consegue gerar simpatia, o que reforça justamente a ambiguidade moral que o filme propõe.

Aliás, essa capacidade de tornar personagens envolvidos em crimes tão carismáticos é, ao mesmo tempo, um dos maiores acertos e um dos pontos mais perigosos da narrativa. O filme mostra com clareza como esses esquemas funcionam desde estratégias de manipulação até o uso de “clickbait” e evidencia o quão fácil é cair nesse tipo de armadilha. Nesse sentido, a obra também funciona como um alerta sobre os riscos da internet e a forma como lidamos com nossos dados no ambiente digital.
Em termos de ritmo, o longa que ultrapassa as duas horas de duração consegue se manter envolvente na maior parte do tempo. É um filme dinâmico, com muitos acontecimentos concentrados em um curto período, o que ajuda a prender a atenção. Há, no entanto, uma leve queda de ritmo na parte final, que logo é retomada antes do desfecho.

É importante destacar também que o filme não economiza em intensidade. Há cenas explícitas envolvendo sexo, violência e uso de drogas, essa escolha reforça o tom mais cru da narrativa, sem suavizar as consequências do estilo de vida retratado.
Por fim, os diálogos merecem um olhar especial, principalmente nas cenas entre Daniel e seu pai. São momentos carregados de tensão, com falas duras e emocionalmente intensas, que revelam uma relação marcada por frustração, incompreensão e conflito geracional. No geral, O Rei da Internet é uma obra que entretém, provoca e levanta discussões importantes. Ao mesmo tempo em que envolve o espectador com uma narrativa ágil e personagens carismáticos, também convida à reflexão sobre os perigos da internet, a sedução do dinheiro fácil e as escolhas feitas ainda na juventude. É um filme que, mais do que contar uma história, deixa um alerta e uma certa inquietação ao final.

