Overman, dirigido por Tomás Portella e baseado na obra do cartunista brasileiro Laerte Coutinho, é uma comédia que acompanha um super-herói desempregado, frustrado e à beira de um colapso emocional e financeiro. Quando surge a oportunidade de trabalhar na Secretaria de Segurança Pública, Overman acredita que finalmente poderá colocar a vida nos eixos. Mas, enquanto tenta recuperar seu espaço, precisa lidar com o próprio ego quando sua parceira, Pâmela, começa a ganhar tanta fama quanto ele ao mesmo tempo em que descobre que uma figura de autoridade pode estar por trás dos problemas da cidade.

Só de olhar para o pôster de Overman, já dá para imaginar o tipo de filme que estamos prestes a assistir. É uma comédia pastelão, uma sátira de super-heróis que leva esse universo para dentro de um contexto brasileiro. E, particularmente, eu acho a ideia muito boa. O problema é que, para mim, o filme tinha ideias interessantes demais para entregar tão pouco a partir delas.
A proposta de transformar os arquétipos dos super-heróis em uma sátira brasileira funciona em alguns momentos. Existem críticas ao capitalismo, à política, à cultura da internet e até à própria construção do herói masculino. O problema é que quase tudo fica na superfície. Mesmo entendendo que estamos falando de uma sátira e que não existe aqui a intenção de construir uma grande reflexão filosófica, eu senti falta de um pouco mais de criatividade no desenvolvimento dessas ideias.
O próprio Overman é um exemplo disso. Ele é um super-herói extremamente egocêntrico, egoísta, mimado e com uma masculinidade bastante frágil. Quando sua parceira começa a fazer mais sucesso do que ele, seu primeiro impulso é tentar tirá-la do caminho. A ideia é interessante e combina perfeitamente com uma sátira de super-heróis, mas a execução me fez ter muito mais antipatia pelo personagem do que vontade de acompanhar sua trajetória eu não consegui achar o cara engraçado.

E ele passa boa parte do filme dando chilique, entrando em crise e tentando provar alguma coisa. Existe até uma boa piada envolvendo sua terapia, mas, no meu caso, não foi suficiente para tornar o personagem interessante. Ver um homem daquele tamanho tendo uma crise de ego atrás da outra simplesmente me deu preguiça.
Falando em personagens, preciso comentar a parceira do Overman. E aqui, sinceramente, foi um dos elementos que mais me incomodou. A maneira como a personagem é construída e algumas das piadas envolvendo ela me pareceram de muito mau gosto e, em determinados momentos, até ofensivas. Eu entendo a proposta de provocar e brincar com determinados estereótipos, mas achei que algumas escolhas passaram do ponto e não funcionaram para mim.
Por outro lado, existe uma personagem que achei muito interessante a influencer. Ela é praticamente uma caricatura da figura da influenciadora que acumula seguidores, recebe dinheiro para fazer qualquer coisa e não necessariamente tem absolutamente nada relevante para dizer. E, justamente por ser tão absurda, ela acaba funcionando dentro da proposta do filme. Foi uma das poucas personagens que realmente me arrancou algumas risadas, principalmente pela forma como ela tenta aconselhar o próprio Overman.

O grande problema é que praticamente todos os personagens são construídos a partir de estereótipos. E isso também se reflete nas atuações. Os atores fazem o que o filme pede entregam interpretações exageradas, caricatas e completamente inseridas no tom de sátira. Não acho que exista exatamente um problema de atuação aqui, o que me incomoda é que o próprio texto não oferece muito além desses estereótipos. E é justamente no roteiro que eu acho que Overman poderia ter ido muito mais longe.
O vilão ligado ao capitalismo e à política, por exemplo, tem uma ideia bastante interessante. A analogia funciona e existe potencial para construir uma crítica muito mais afiada a partir dela. Só que o filme parece se contentar em apresentar a ideia e fazer algumas piadas em torno dela, quando poderia realmente aprofundar essa sátira e transformar o absurdo em uma crítica muito mais contundente e ainda sim mantendo o humor que é o propósito do filme.
O resultado é uma sequência de situações absurdas, personagens estereotipados e momentos de humor que, algumas vezes, funcionam e, em outras, provocam aquela famosa vergonha alheia. Para quem gosta de sátiras bem escrachadas, existe uma boa chance de encontrar diversão aqui. Eu, particularmente, não encontrei tanto assim.

Inclusive, apesar de o filme ter aproximadamente uma hora e vinte minutos, para mim ele pareceu bem mais longo. O excesso de cenas absurdas, as crises constantes do protagonista e algumas situações que simplesmente não funcionaram comigo fizeram a experiência parecer mais cansativa do que deveria. Também preciso deixar claro que não estou avaliando aqui a obra original de Laerte, porque não tenho o contexto dos quadrinhos. Estou falando exclusivamente do filme e da experiência que ele me proporcionou.
No fim, Overman é uma sátira que tinha uma premissa interessante e alguns bons alvos para suas críticas, mas que, para mim, não conseguiu transformar essas ideias em algo realmente marcante. É um filme que sabe o que quer ser, mas não conseguiu me convencer de que tinha muito mais a oferecer além da galhofa. Quem gosta de sátira, humor absurdo e desse universo de super-heróis provavelmente pode encontrar aqui um brilho que eu simplesmente não consegui enxergar.

