Pega Essa Dica – Sexa

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Dirigido e protagonizado por Glória Pires, Sexa acompanha Bárbara, uma mulher que acaba de completar 60 anos e se vê tomada pelo pavor silencioso de envelhecer. Entre o trabalho como revisora de textos e as conversas sempre divertidas com sua melhor amiga e vizinha Cristina, ela tenta equilibrar rotina e inquietações. Cansada de desilusões amorosas, Bárbara já havia decidido abandonar qualquer expectativa de encontrar um novo amor. Até que um encontro inesperado vira sua vida do avesso Davi, um viúvo 25 anos mais jovem, cruza seu caminho. A partir daí, Bárbara precisa enfrentar seus próprios medos e lidar com os julgamentos sociais para decidir se se permite viver uma paixão transformadora.

Sexa é um filme que conversa diretamente com um público muito específico mulheres 60+. Esse recorte, pouco explorado no cinema, já coloca a obra em destaque é raro ver protagonistas dessa faixa etária com complexidade, protagonismo e espaço para contar suas próprias histórias. O filme é curto, dinâmico e não perde tempo com enrolações vai direto ao ponto e aborda, dentro do grande tema do envelhecimento feminino, questões como o julgamento constante que essas mulheres enfrentam e a tendência a se culparem por tudo.

Ver Glória Pires assumindo a direção pela primeira vez é algo interessante. Ela poderia facilmente ter se alongado ou perdido o ritmo, mas escolhe uma narrativa enxuta, apresentando os personagens de maneira objetiva. O filme poderia pender para a comédia ou para o drama, mas acaba ficando em um meio-termo não é exatamente nenhum dos dois.

Sendo sincera, a atuação da Glória não é o ponto mais forte aqui. Está longe das suas melhores performances, e por mais que o tema seja relevante, não consegui acreditar completamente nela como Bárbara. Estrear na direção e ao mesmo tempo protagonizar é uma aposta corajosa, mas o resultado fica meio “50/50” nem a direção nem a atuação atingem todo o seu potencial. Os personagens também soam um pouco caricatos. Cristina é a clássica “melhor amiga divertida” que já vimos em vários filmes carismática, leve, traz humor e contrasta com a energia carregada de Bárbara. Já Davi é aquele “homem perfeito demais”, com seus dramas, mas idealizado ao ponto de parecer feito para virar a vida da protagonista de cabeça para baixo.

Por outro lado, o filho e a nora de Bárbara são irritantes irritantes demais  e representam perfeitamente um tipo real de gente que existe por aí. O conflito entre mãe e filho, porém, é bastante morno. Bárbara é uma mulherão, mas por causa da idade vive insegura, culpada e constantemente diminuída. Quando finalmente chega o momento em que esperamos que ela imponha limites, isso acontece de forma sutil e sem o grande confronto que o filme parece prometer, o que contribui para a previsibilidade da narrativa.

Visualmente, o filme funciona bem. A fotografia tem aquele clima do Rio de Janeiro, com cores e luzes que remetem à cidade, e alguns enquadramentos são realmente bonitos como a cena da praia entre Bárbara e Cristina, filmada de cima, que reforça a personalidade de cada uma até pela escolha dos trajes de banho. O figurino também é um acerto Bárbara tem 60 anos, mas está longe da imagem estereotipada de “senhora”; é elegante, ousada na medida, e sua roupa expressa esse desejo de continuar sendo um mulherão. É especialmente simbólico como o filho, infantil e controlador, se incomoda com o fato de ela mostrar um pouco de pele como se sua idade a proibisse de se sentir bonita, viva ou desejável. O figurino deixa evidente que esse brilho não apagou.

No fim, a melhor mensagem do filme é simples, mas poderosa se você está vivo, viva independentemente da idade, das críticas e das expectativas alheias. Mesmo que quem você ama não compreenda, a vida continua, e merece ser vivida com intensidade.