Pega Essa Dica – Um Lobo entre os Cisnes

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Dirigido por Marcos Schechtman e Helena Varvaki, Um Lobo entre os Cisnes é uma cinebiografia sensível e inspiradora que retrata a vida do bailarino Thiago Soares, um dos maiores nomes do balé brasileiro e referência internacional. Acompanhamos a jornada do menino criado no subúrbio do Rio de Janeiro, que começou no hip hop mas conheceu as sapatilhas de balé clássico ao receber, na adolescência, uma bolsa em uma renomada escola de dança. Mesmo começando mais velho, da  idade considerada tardia para o balé, Thiago logo se destaca por seu talento natural, técnica afiada e uma força de presença que rompe qualquer estereótipo de quem “pode ou não pode” ocupar o palco. Inseguro, indisciplinado e muitas vezes desajustado ao rigor da dança clássica, Thiago esconde seu treino da família no início. Tudo muda quando cruza o caminho do bailarino cubano Dino Carretti, que se tornará seu mentor. A relação entre os dois, inicialmente marcada por tensão e resistência, evolui para uma parceria de afeto, confiança e crescimento artístico. É sob essa influência que Thiago desenvolve sua identidade como dançarino e como homem, transpondo limites sociais, culturais e físicos para alcançar o impossível.

Um dos aspectos mais potentes do filme aborda, com delicadeza e firmeza, as marcas culturais e os conflitos internos que acompanham Thiago entrando no universo do balé clássico, o filme não se limita a contar a ascensão de um talento ele mergulha nas camadas de identidade, masculinidade e pertencimento. Vindo de um contexto social onde os papéis de gênero são extremamente rígidos e dançar é visto, muitas vezes, como algo “não masculino”, o protagonista se vê constantemente tentando reafirmar sua virilidade. Há um impulso quase automático de justificar sua presença na dança, de deixar claro para os outros e para si mesmo que é heterossexual, como se precisasse reforçar que ainda se encaixa nos moldes esperados do que é ser “homem” dentro da sua realidade. Essa necessidade de se explicar, de se proteger do julgamento alheio, aparece nas pequenas conversas, nos flertes ensaiados, nos gestos de autoafirmação. Mas conforme ele mergulha mais fundo na arte do balé, algo começa a mudar: a dança passa a ser maior que qualquer estereótipo. Ele se dá conta de que sua sexualidade não define sua presença no palco, e que a excelência artística transcende essas barreiras sociais limitantes. É a partir desse momento sutil, mas poderoso que o filme revela um amadurecimento emocional profundo. Quando ele para de tentar provar algo ao mundo e simplesmente dançar, algo se encaixa. Há uma libertação ali, tanto para ele quanto para quem o acompanha.

O elenco entrega performances que tocam profundamente. É muito fácil se conectar com os personagens, entender suas dores, suas barreiras e torcer por suas conquistas. Todos estão afinados com a proposta do filme, mas dois nomes se destacam de forma inesquecível: Matheus Abreu e Darío Grandinetti. Matheus dá vida a Thiago com uma entrega intensa e ao mesmo tempo sutil. Sua interpretação é sensível, verdadeira e carrega o peso de uma transformação emocional e física que se desenha aos poucos, como na própria arte da dança. É comovente acompanhar a jornada do personagem através de seus gestos, silêncios e olhares mas também através do corpo, que se torna ferramenta de expressão. Matheus dança muito. E dança lindamente. A entrega corporal dele impressiona não só pela técnica, mas pela emoção que atravessa o movimento. Dá pra imaginar o quanto essa preparação deve ter sido exigente e desgastante e isso só valoriza ainda mais o resultado que vemos em tela. No outro extremo, mas com a mesma potência, Darío Grandinetti interpreta Dino, o exigente mentor cubano. Dino é um artista genial dentro da história, um mestre rigoroso e, à primeira vista, quase impenetrável. Mas Grandinetti consegue revelar, por trás da dureza, camadas de humanidade e sensibilidade com pequenos gestos e olhares. É no não-dito, no controle, que percebemos a paixão e a delicadeza do personagem. Seu desempenho é firme, elegante e absolutamente tocante. O filme quebra a visão romantizada e estereotipada que muitos têm sobre o balé como se fosse algo frágil ou fácil  e mostra com força o quanto essa arte exige disciplina, técnica, resiliência e profundidade emocional. É uma dança que vem do corpo, mas nasce da alma. E isso fica evidente na atuação desse elenco, que soube honrar a dança, a história e os sentimentos com autenticidade.

Mais do que uma história sobre dança, Um Lobo entre os Cisnes é um retrato profundo e emocionante sobre resistência, reinvenção e pertencimento. É um convite para olhar além das aparências e preconceitos, mostrando como a arte tem o poder de transformar vidas, romper barreiras sociais e culturais, e abrir caminhos onde antes só havia obstáculos. Essa narrativa inspiradora reforça a importância de acolher a diversidade, celebrar a coragem de ser autêntico e valorizar a força que existe em cada um de nós para transformar dificuldades em arte sem cair em romantizações excessivas, pois no Brasil sabemos que a vida do artista é feita de desafios reais, muitas vezes invisíveis e desvalorizados.

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