Quando mais nova, Nora foi encarregada de escrever um texto se imaginando como um objeto inanimado, e foi nesse momento que usou como exemplo a casa onde sua família vive há gerações. Provavelmente, essa foi uma das últimas vezes em que a protagonista utilizou a arte para se encontrar, em vez de se esconder. Essa é a metáfora apresentada logo no início de Valor Sentimental, novo longa de Joachim Trier, que revela tanto a beleza quanto as rachaduras que atravessam gerações.

Valor Sentimental é um drama sobre relações familiares, arte e memória. Após o falecimento da mãe, as irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) reencontram o pai, Gustav (Stellan Skarsgård), anos depois de ele ter ido embora sem nunca mais voltar. Enquanto Nora é uma atriz talentosa que enfrenta um intenso medo de palco, Gustav é um renomado diretor de cinema, com uma carreira consolidada, que atravessa uma pausa profissional, mas prepara seu retorno com um projeto inspirado na vida e na morte de sua própria mãe, ainda que se recuse a admitir isso. Em uma tentativa de reaproximação, ele oferece o papel principal a Nora, que recusa. O papel acaba sendo entregue a uma jovem estrela de Hollywood, intensificando ressentimentos e aprofundando conflitos familiares ligados ao passado, aos traumas e ao abandono.
A casa desempenha um papel fundamental no filme, tornando-se praticamente um personagem. Ela transborda sentimentos, sensações e lembranças, memórias geracionais de uma família fragmentada. Grande, bem estruturada e resistente ao tempo, por fora parece intacta; por dentro, no entanto, carrega rachaduras que se acumulam desde sua construção. A casa funciona como uma poderosa metáfora para as cicatrizes emocionais dessa família: tudo o que foi vivido ali permanece impregnado em suas paredes, alegrias, festas, tragédias e perdas. É nesse espaço que também descobrimos um dos eventos mais marcantes da narrativa: o suicídio da mãe de Gustav, ocorrido ali quando ele ainda era criança.
A atriz que assume o papel originalmente pensado para Nora, Rachel (Elle Fanning), possui uma carreira sólida e entrega uma atuação competente. Ainda assim, falta à personagem a profundidade emocional que Nora poderia oferecer. Gustav, por sua vez, não se configura exatamente como um antagonista, mas como uma figura complexa que evidencia as limitações emocionais da própria família. Joachim Trier o constrói como um homem narcisista, alguém que domina o ambiente de um set de filmagem, mas é incapaz de conduzir a própria vida afetiva. Sua relação com as filhas é marcada pela superficialidade, reflexo de uma rigidez emocional que, ao longo dos anos, transformou o rancor de um pai ausente em um vazio afetivo profundo, dificultando qualquer possibilidade de vínculo genuíno.
No fim, Valor Sentimental propõe uma reflexão sensível sobre como, muitas vezes, reproduzimos, ainda que de forma inconsciente, as falhas e decisões equivocadas de nossos antepassados. Mesmo quando alcançamos algum tipo de sucesso, certas fissuras internas continuam a crescer silenciosamente com o tempo, assim como as rachaduras da casa em que cresceram. O passado, afinal, nunca deixa de existir por completo, ele apenas encontra novas formas de permanecer.

