A História do Som, dirigido por Oliver Hermanus, acompanha a jornada de dois homens, Lionel e David, que se conhecem em 1917 no Conservatório de Boston, unidos pela paixão pela música folk. Anos depois, eles se reencontram e partem em uma viagem pelo interior do Maine para registrar as vozes e canções de ex-soldados da Primeira Guerra Mundial.
O ponto de partida é histórico, mas o motor narrativo é o romance. O filme constrói uma história de amor entre dois homens tendo a música como pano de fundo não apenas como ambientação, mas como linguagem afetiva. A música aproxima, registra, eterniza. E, no desfecho, é ela quem amarra as feridas.

Embora acompanhemos o relacionamento de muito perto, chama atenção o fato de que a homossexualidade não é problematizada dentro da narrativa. Ambientado entre 1917 e 1924, o filme opta por não transformar o preconceito em conflito central. Ninguém descobre explicitamente o vínculo entre os protagonistas exceto uma personagem secundária que escolhe manter o segredo. Para o restante da sociedade, eles são apenas grandes amigos em pesquisa acadêmica.
Alguns espectadores podem interpretar essa escolha como uma falta de coragem do roteiro. Eu, particularmente, vejo como uma decisão estética e narrativa consciente. Estamos acostumados a narrativas LGBTQIA+ marcadas pela tragédia, pela punição ou pelo sofrimento social. Aqui, o amor não é castigado ele simplesmente existe. Historicamente, pode haver simplificações. Mas, em tela, funciona. A leveza é parte da proposta.
Hermanus não busca uma ruptura estética queer. Pelo contrário emprega uma linguagem clássica, contemplativa e polida a mesma que poderia ser usada em um romance heterossexual tradicional. Isso pode soar conservador para alguns, mas também universaliza a experiência amorosa dos personagens.

A trilha sonora é um dos pontos mais fortes do filme. A ideia de registrar a história através da música é explorada com delicadeza. As canções encontradas durante as viagens evocam aproximações e distanciamentos. Em vez de cartas trocadas entre amantes, eles se comunicam por gravações em cilindros de cera um gesto profundamente romântico.
O trabalho com o som enquanto elemento narrativo é sofisticado. Em determinado momento, o luto se traduz numa sobreposição de vozes e canções simultâneas, até que o personagem precise tapar os ouvidos para se proteger do excesso de estímulo. O som deixa de ser apenas trilha e passa a ser experiência emocional.
As atuações de Paul Mescal e Josh O’Connor são contidas e expressivas. Muito é dito pelo olhar. Não é um filme de grandes conflitos ou reviravoltas dramáticas é contemplativo, de ação mínima e emoções sutis. Ainda assim, a cena final é profundamente tocante, justamente pela construção delicada do romance aliada à música.
A História do Som não é um romance intenso no sentido trágico. É um romance musicado, sensível e poético daqueles que parecem eternos enquanto duram.

