Hokum: O Pesadelo da Bruxa, dirigido por Damian McCarthy, acompanha Ohm Bauman, um escritor solitário, introspectivo e emocionalmente fechado, que vive um longo processo de luto. Carregando a dor da perda dos pais cujo último desejo era que suas cinzas fossem espalhadas ele se isola em uma pousada remota na Irlanda, buscando cumprir essa despedida enquanto tenta lidar com seus próprios fantasmas internos.

Desde o início, o filme constrói um protagonista difícil de acessar. Ohm não é alguém que convida o público a se aproximar com facilidade ele afasta pessoas, evita conexões e parece constantemente preso em si mesmo. E é justamente nesse isolamento que a narrativa encontra seu terreno mais fértil. O que começa como um retiro solitário logo se transforma em um mergulho psicológico perturbador, onde realidade, trauma e sobrenatural passam a se confundir.
A pousada onde ele se hospeda rapidamente revela sua natureza opressiva. O ambiente deixa de ser apenas um cenário e passa a funcionar quase como uma extensão da mente do protagonista claustrofóbico, instável e carregado de tensão. É ali que Ohm começa a enfrentar visões cada vez mais perturbadoras, com sonhos invasivos, criaturas grotescas e a presença constante de uma entidade que assombra a suíte de lua de mel uma bruxa que parece estar diretamente conectada aos seus conflitos internos.

Visualmente, o filme é um dos seus pontos mais fortes. A fotografia é marcante, com uma estética sombria e bem construída, que valoriza o desconforto e o mistério. A iluminação, apesar de bastante escura em muitos momentos, é usada de forma estratégica, criando uma atmosfera densa e imersiva. A direção de arte e a caracterização também merecem destaque, as criaturas são bem elaboradas, com maquiagens e efeitos que realmente causam impacto. Existe um cuidado evidente em criar um universo visual que seja inquietante, e isso funciona.
No entanto, quando olhamos para a construção do terror em si, o filme opta por um caminho mais convencional. Grande parte da tensão é construída a partir de jumpscares sustos que, em muitos momentos, acabam sendo previsíveis. Eles até funcionam pontualmente, mas não surpreendem. Uma exceção interessante é a aparição de um personagem com estética de coelho, que entrega um dos momentos mais inesperados e eficazes do filme nesse sentido.

Narrativamente,o filme apoia em diversos elementos clássicos do gênero. Não há uma grande inovação na forma como a história é conduzida, e isso pode ser sentido ao longo do filme. Em alguns momentos, a narrativa se torna um pouco confusa, especialmente nas partes mais contemplativas, em que Ohm parece preso naquele espaço tanto física quanto emocionalmente. Ainda assim, existe um envolvimento curioso ao mesmo tempo em que o espectador pode se sentir perdido, também compartilha da angústia do personagem e do seu desespero para escapar daquela situação.
Algumas escolhas de roteiro levantam questionamentos. Há situações que parecem pouco exploradas ou até incoerentes como a própria falta de explicações mais claras sobre a origem da bruxa ou sua ligação com aquele espaço. Além disso, certos desfechos e resoluções de personagens soam apressados ou forçados, o que enfraquece um pouco o impacto geral da narrativa.
A figura da bruxa, que poderia ser o grande destaque do terror, acaba sendo curiosamente menos assustadora do que outras entidades apresentadas ao longo do filme. Ainda assim, sua presença carrega um peso simbólico interessante e contribui para a atmosfera inquietante.

No fundo, o filme funciona também como uma metáfora sobre enfrentamento. Ohm é colocado diante de um terror tão intenso que, de certa forma, é obrigado a encarar aquilo que vinha evitando seus traumas, sua dor e sua dificuldade em seguir em frente. Existe ali uma tentativa de construir uma jornada de transformação, ainda que nem sempre desenvolvida com a profundidade que poderia ter.
Hokum: O Pesadelo da Bruxa não reinventa o gênero e está longe de ser um marco dentro do terror, mas cumpre bem o papel de entreter. Para quem gosta de histórias com temática sobrenatural, especialmente envolvendo bruxas e entidades, o filme pode ser uma experiência interessante. No fim, é um terror que aposta mais na atmosfera e no impacto visual do que na inovação narrativa e, mesmo com suas falhas, consegue prender a atenção e criar momentos de tensão.

