Pega Essa Dica – Frankenstein

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Visto na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Crítica: Frankenstein – 49ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação): filmes,  podcasts, críticas e tudo sobre cinema

Criar vida sempre foi um ato de poder, mas em Frankenstein, o que realmente assombra não é o nascimento da criatura, e sim o vazio deixado por quem a trouxe ao mundo. O conto do criador e da criatura ganha uma nova abordagem sob o olhar do diretor Guillermo del Toro. Focado na releitura da obra Frankenstein e na relação entre seus dois protagonistas, o filme carrega a identidade de outros trabalhos do cineasta, especialmente em sua marcante direção de arte.

Baseado no romance de 1818 de Mary Shelley, Frankenstein revisita um dos maiores clássicos do terror sob uma nova perspectiva. A trama acompanha Victor Frankenstein (Oscar Isaac), um cientista brilhante e egocêntrico que decide se aventurar em experimentos ousados sobre o corpo humano, criando vida a partir de cadáveres. Suas experiências acabam desencadeando uma série de tragédias, tanto para ele quanto para a Criatura (Jacob Elordi). Ao se deparar com o resultado de sua criação, Victor entra em colapso e a abandona, despertando a ira do ser, que passa a buscar vingança.

49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Dividido em dois atos, o longa apresenta a história sob perspectivas distintas: a de Victor, no primeiro momento, e a da Criatura, no segundo. Essa escolha narrativa funciona muito bem para o desenvolvimento da rivalidade entre os dois. Embora o segundo ato se destaque ao trazer maior carga emocional e um tom mais próximo de fábula, o primeiro também se mostra interessante ao explorar os estudos e experimentos do cientista, com sequências visualmente impactantes. O grande ápice do filme, no entanto, é a icônica cena da criação da Criatura, um momento em que direção e trilha sonora se unem de forma arrebatadora, resultando em uma sequência de tirar o fôlego.

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Movido pela evidente paixão de Guillermo del Toro pelo material original, o filme assume um caráter de drama gótico que valoriza sua própria releitura, mesmo diante das inúmeras adaptações já existentes. A dualidade entre criador e criatura é bem estabelecida, permitindo que o público compreenda os acontecimentos a partir dos olhares de ambos. Enquanto Victor habita um ambiente científico marcado pela obsessão e pelo descontrole, a jornada da Criatura assume contornos mais fabulares e sensíveis. Nesse aspecto, destaca-se a atuação de Jacob Elordi, que entrega uma performance física e emocional impressionante, seus movimentos e seu andar desajeitado traduzem perfeitamente a estranheza de habitar um corpo que não nasceu, mas foi construído.

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A relação entre os protagonistas é um dos pontos fortes da narrativa, mas o restante do elenco acaba sendo pouco desenvolvido. Personagens secundários parecem deslocados em cena e não atingem o mesmo nível de relevância dramática; nomes como Christoph Waltz e Mia Goth, por exemplo, não encontram pleno espaço para se destacar. Tecnicamente, o filme também oscila: embora o CGI funcione bem em determinados momentos, em outros soa artificial e pouco convincente. Em contrapartida, a trilha sonora se impõe com força, trazendo uma intensidade que reforça o peso dramático da história. Já a ambientação, o figurino e a direção de arte evidenciam o cuidado característico de Guillermo del Toro, consolidando-o como um dos grandes nomes do cinema contemporâneo.

Frankenstein reúne elementos recorrentes da filmografia de Guillermo del Toro, especialmente na forma como aborda a relação entre criador e criatura. Trata-se de um filme de estética gótica que revisita uma história já consagrada, oferecendo dois pontos de vista complementares. Mesmo com algumas falhas de roteiro e efeitos visuais irregulares, a obra se destaca pela beleza de sua construção estética e pelo tom de fábula que atravessa a narrativa. Um filme poderoso, que reafirma o olhar autoral do diretor e se posiciona como uma das produções mais ambiciosas da Netflix no ano.