Buenos Aires é um documentário que acompanha a pequena cidade pernambucana de mesmo nome da capital argentina. Localizada no Nordeste do Brasil, a cidade se torna o centro de uma investigação sobre identidade cultural, pertencimento e as curiosas conexões criadas entre esse município brasileiro e Buenos Aires, na Argentina. Através da narração de uma professora, o longa apresenta moradores, tradições locais e elementos culturais que tentam estabelecer um vínculo afetivo com o país vizinho, especialmente durante o período da Copa do Mundo. Entre jogos de futebol, festas populares e referências argentinas espalhadas pela cidade, o documentário busca explorar como esse imaginário foi construído pelos habitantes do local.

A proposta do documentário é curiosa e até bastante interessante à primeira vista. Existe algo naturalmente intrigante em descobrir que há uma cidade chamada Buenos Aires no interior de Pernambuco e observar como os moradores se relacionam com esse nome. O problema é que o filme parece acreditar que essa coincidência, sozinha, já sustenta um longa-metragem inteiro e, para mim, isso acaba não funcionando.
Durante boa parte do documentário, tive a sensação de que ele tentava transformar algo relativamente simples em uma grande descoberta extraordinária. A narrativa insiste constantemente nessa ideia de “réplica” da Buenos Aires argentina, como se houvesse uma conexão cultural profunda entre os dois lugares. Em alguns momentos isso aparece de forma até involuntariamente caricata, como na tentativa de recriar o Caminito. É interessante perceber o esforço simbólico dos moradores em criar esse vínculo, mas ao mesmo tempo o filme nunca aprofunda realmente o que isso significa para aquelas pessoas além da estética ou da curiosidade do nome.
O grande problema é justamente a superficialidade. O documentário parece girar em círculos o tempo inteiro sem conseguir avançar para uma reflexão mais profunda sobre identidade, cultura ou pertencimento. Tudo fica muito no nível da explicação. A narradora passa boa parte do filme contextualizando elementos argentinos e mostrando como eles aparecem naquela cidade brasileira, mas raramente existe um mergulho verdadeiro nas pessoas ou nas histórias apresentadas.

E isso acaba tornando o longa extremamente repetitivo. A sensação é de que o filme tem pouco material para sustentar sua duração. Talvez essa proposta funcionasse melhor em um curta-metragem, porque a ideia central é compreendida logo no início existe uma cidade chamada Buenos Aires em Pernambuco que incorpora alguns símbolos argentinos ao seu cotidiano. Depois disso, o documentário parece apenas repetir essa mesma informação de diferentes formas, sem realmente expandi-la.
As cenas de futebol, por exemplo, acabam se tornando cansativas justamente porque o filme retorna a elas constantemente sem acrescentar novas camadas. O mesmo vale para algumas falas dos personagens, que reforçam repetidamente as mesmas ideias. Em vez de aprofundar as relações humanas ou explorar conflitos e particularidades da cidade, o documentário prefere insistir na curiosidade do nome e nos paralelos com a Argentina.
Outro aspecto que me incomodou bastante foi a artificialidade presente em muitos depoimentos. Com exceção do coveiro que, para mim, foi o personagem mais espontâneo e genuíno do documentário quase todas as entrevistas parecem excessivamente ensaiadas. Existe uma sensação constante de que as pessoas estão performando para a câmera em vez de simplesmente compartilhando suas experiências de forma natural. E isso me parece muito mais um problema de direção do que dos próprios moradores. Falta organicidade nas conversas, falta intimidade, falta aquela sensação de que estamos realmente entrando na vida daquelas pessoas.

O resultado é um documentário que tenta vender algo extraordinário, mas que nunca consegue provar por que aquilo seria tão extraordinário assim. Afinal, estamos falando de costumes extremamente comuns a diversas cidades pequenas do Brasil pessoas que gostam de futebol, música, festas populares e encontros comunitários. Não há nada de errado nisso, claro, mas o filme parece querer transformar essas características em algo muito maior sem realmente construir essa complexidade.
Visualmente, o longa também não traz muitos elementos memoráveis. Tudo parece funcional, mas sem grande identidade estética. E talvez isso contribua para a sensação de esquecimento que o documentário provoca. Quando ele termina, sobra muito pouco além da informação inicial existe uma cidade chamada Buenos Aires em Pernambuco. O problema é que essa é exatamente a mesma informação que já entendemos nos primeiros minutos.
No fim, “Buenos Aires” acaba sendo um documentário com uma premissa interessante, mas que não encontra profundidade suficiente para sustentar sua própria proposta. Existe potencial na ideia, existe curiosidade no conceito e existem personagens que poderiam render discussões muito mais ricas. Mas o filme parece satisfeito em permanecer na superfície, repetindo símbolos e situações sem realmente mergulhar no que poderia tornar essa história única.

