Coração Partido: um romance que poderia ter ido além
O filme Coração Partido (Your Heart Will Be Broken), com estreia nacional nos cinemas brasileiros em 20 de agosto de 2026 distribuído pela Paris Filmes, é uma adaptação do romance best-seller da autora Anna Jane. A direção é de Mikhail Vaynberg e o elenco principal conta com Veronika Zhuravleva, Daniel Vegas e Alya Maye

Coração Partido acompanha Polina, uma adolescente que tenta recomeçar a vida em uma nova cidade e se torna alvo de bullying na escola. Sua rotina muda quando Bars, o aluno mais temido do colégio, oferece proteção em troca de que ela siga suas próprias regras. O que começa como uma amizade de conveniência evolui para uma relação intensa que desafia os limites entre afeto, controle e obsessão
Coração Partido aposta em uma fórmula bastante conhecida dos romances adolescentes: a garota aparentemente inocente que se envolve com o bad boy de passado complicado. Porém, apesar de partir de uma premissa familiar, o filme consegue acrescentar alguns elementos interessantes à dinâmica entre seus protagonistas. Polina (Veronika Zhuravleva) e Bars (Daniel Vegas) entregam aquilo que o roteiro pede, principalmente pela química entre os dois. Polina é uma jovem que não tem medo de enfrentar as pessoas e não abaixa a cabeça diante das situações que enfrenta, enquanto Bars carrega um passado traumático que ajuda a explicar sua postura de bad boy. O interessante é perceber como as histórias dos dois possuem pontos de conexão: Polina sofre com um padrasto abusivo, que também maltrata sua mãe, enquanto Bars cresceu tendo uma mãe alcoólatra e um pai ausente. Ambos carregam feridas familiares e, consequentemente, têm medo de amar e de se entregar emocionalmente. Esse aspecto é bem desenvolvido na relação dos protagonistas e contribui para que a aproximação entre eles funcione. Infelizmente, o mesmo cuidado não é dado aos personagens secundários. A mãe de Polina, seu padrasto e os demais personagens acabam funcionando principalmente como apoio para a história do casal, sem receberem um desenvolvimento mais profundo.

A direção também é um dos pontos positivos do filme. As cenas são bem conduzidas e conseguem transmitir diferentes emoções ao espectador, principalmente nos momentos de maior tensão e sofrimento. Há cenas capazes de despertar raiva, tristeza e indignação diante daquilo que os personagens enfrentam, mostrando que a direção consegue extrair peso emocional de determinadas situações. A fotografia também merece destaque, já que apresenta imagens bonitas em grande parte do filme e contribui para criar uma atmosfera adequada para a história. Mesmo quando o roteiro apresenta algumas limitações, a direção consegue fazer com que determinados momentos tenham mais impacto visual e emocional.
Na narrativa, Coração Partido segue inicialmente aquele conhecido clichê da garota inocente que acaba se envolvendo com o bad boy. Entretanto, o filme tenta subverter um pouco essa fórmula ao mostrar que Polina não é simplesmente uma protagonista ingênua que precisa ser salva. Ela sofre bastante nas mãos dos colegas, que praticam bullying, agridem e humilham a personagem, enquanto Bars também enfrenta seus próprios problemas relacionados ao pai e a outras pessoas que fazem parte de seu passado. Dessa forma, os dois acabam se aproximando não apenas pela atração, mas também por reconhecerem no outro dores que conhecem muito bem. Outro elemento que poderia ter recebido mais destaque são as corridas de moto. A ideia de colocar os participantes correndo enquanto estão amarrados às suas garupas é diferente e poderia ter sido mais explorada, principalmente porque traz uma identidade própria para o filme e foge um pouco da estrutura tradicional desse tipo de romance.

O maior problema está no próprio roteiro, que em alguns momentos parece saber exatamente para onde quer levar a história, mas em outros muda de direção sem apresentar uma justificativa suficientemente convincente. Algumas situações são introduzidas e parecem apontar para um determinado caminho, mas posteriormente acabam tomando outra direção de maneira um pouco abrupta. Isso faz com que certas decisões dos personagens e algumas reviravoltas pareçam menos naturais do que poderiam ser. O filme possui boas ideias e apresenta conflitos que poderiam render bastante, mas nem sempre consegue desenvolvê-los com a profundidade necessária. É como se existisse uma história maior e mais complexa querendo sair dali, mas o roteiro acaba escolhendo caminhos mais fáceis em determinados momentos.
No fim, Coração Partido é aquele tipo de filme que funciona bem como uma boa “Sessão da Tarde”: é fácil de assistir, tem um casal protagonista com bastante química e consegue entregar alguns momentos emocionantes. Há uma coisa ou outra que tenta inovar dentro de uma fórmula bastante conhecida, principalmente na maneira como apresenta os traumas dos protagonistas e nas corridas de moto. Porém, ainda falta bastante para que o filme se transforme em uma história realmente marcante. Os protagonistas são, sem dúvida, o principal motivo para continuar acompanhando a trama, mas o desenvolvimento dos personagens secundários e algumas escolhas do roteiro deixam a sensação de que a produção poderia ter ido muito mais longe. No final, fica aquela impressão inevitável de que Coração Partido poderia ter sido melhor.

