Muito Prazer encontra no absurdo uma maneira inteligente e divertida de discutir sexo, intimidade, desejo e as complicadas relações humanas.
Rubem, um motorista de aplicativo sem perspectivas, herda um antigo motel e encontra Grace, uma ex-funcionária que ainda vive no local. Juntos, eles decidem reabrir o estabelecimento e, para pagar as dívidas, começam a vender vídeos secretos dos clientes para sites eróticos. O plano funciona até que o segredo é descoberto e os dois precisam encontrar uma maneira de escapar da prisão.

O roteiro, também assinado por Jorge Furtado, é leve, rápido e parte de uma premissa bastante interessante. O problema é que, apesar de levantar discussões sobre pornografia, sexualidade, privacidade e precarização do trabalho, o filme acaba passando superficialmente por esses temas. A questão de filmar pessoas sem consentimento também é tratada de maneira simples demais, e o argumento de que “ninguém está sendo prejudicado” não é suficiente para resolver o dilema moral apresentado.
O humor também é bastante irregular. Existem situações realmente divertidas, mas em outros momentos o filme parece tentar reproduzir aquele humor rápido e inteligente característico de Jorge Furtado e acaba ficando um pouco didático, com diálogos que explicam demais e piadas que nem sempre funcionam.
Por outro lado, o filme acerta ao não transformar o sexo em espetáculo. A graça está muito mais nas situações constrangedoras, nas confusões e nas justificativas que os personagens criam para suas próprias escolhas. É nessa mistura de absurdo e cotidiano que Muito Prazer encontra seus melhores momentos.

O elenco é um dos pontos fortes. Daniel de Oliveira conduz Rubem com uma ingenuidade que combina com as situações absurdas, enquanto Luisa Arraes se destaca como Grace, uma personagem misteriosa e cheia de personalidade. A química entre os dois funciona sem transformar a relação em um romance previsível. Samantha Jones completa o trio com bastante energia e ótimo timing cômico. Drica Moraes, Felipe Velozo, Catharina Conte e Nicolas Vargas também estão no elenco.
Jorge Furtado continua demonstrando vontade de experimentar e brincar com o cinema. Há elementos que remetem a trabalhos anteriores do diretor, mas apresentados de uma maneira contemporânea e diferente. O resultado é uma comédia brasileira com personalidade, mesmo que nem todas as ideias sejam desenvolvidas como poderiam.
No fim, Muito Prazer é um filme divertido, com uma boa premissa e ótimas atuações, mas que não aproveita completamente o potencial dos temas que apresenta. Entre bons momentos de humor e algumas escolhas questionáveis no roteiro, é uma produção que entretém, mas poderia entregar muito mais.

