Pega Essa Dica – Ponto Sem Retorno

cinema Crítica Cinema filme Pega Essa Dica Pega Essa Novidade

Ponto Sem Retorno, dirigido por Ridley Scott, acompanha Hig, interpretado por Jacob Elordi, um mecânico que sobreviveu a uma pandemia que praticamente aniquilou a humanidade. Ele vive isolado em um hangar no Colorado com seu cachorro, Jasper, e um ex-fuzileiro naval, Bangley. A rotina dos dois é baseada em sobrevivência e proteção contra possíveis invasores, até que uma transmissão de rádio desperta em Hig a esperança de que talvez exista alguma coisa além daquele pequeno perímetro que ele conhece.

Pela premissa, já dá para perceber que estamos diante de mais um daqueles filmes de fim do mundo. E, sendo bem sincera, eu não estava com expectativas muito altas. Não sou uma grande fã desse tipo de produção, principalmente quando envolve pandemias, que ainda são um assunto muito recente e delicado para nós enquanto sociedade.

Mas uma coisa que gostei é que o filme não fica obcecado em explicar o vírus. A gente sabe que houve uma pandemia, sabe que o mundo praticamente acabou e é isso. Não existe aquela necessidade de descobrir exatamente qual era a doença, como ela surgiu ou encontrar uma cura. O filme está muito mais interessado no que acontece com as pessoas depois que o mundo já acabou. E, nesse sentido, ele funciona. Vez ou outra nos perguntamos sobre o vírus em alguns momentos pontuais, mas ali o foco realmente está no pós.

O problema é que, ao mesmo tempo, o mundo pós-apocalíptico apresentado pelo filme tem algumas conveniências de roteiro que começaram a me incomodar. O hangar onde Hig e Bangley vivem, por exemplo, possui uma quantidade considerável de recursos para alguém que está vivendo em um mundo devastado. Em determinado momento, Hig viaja para uma cidade e encontra uma pessoa que aparentemente sobreviveu sem grandes recursos, além de animais que continuam vivendo por ali. E aí começam a surgir aquelas perguntas inevitáveis: como essa pessoa sobreviveu? Como esses animais estão ali? De onde vieram determinados recursos?

A cidade abandonada, os espaços destruídos e aquela fotografia cinzenta conseguem transmitir muito bem a sensação de isolamento, mas algumas regras daquele mundo parecem não estar muito bem estabelecidas. E isso faz com que algumas situações pareçam simplesmente convenientes para que a história consiga avançar.

E aí chegamos a Jasper. Se você gosta de animais, vá preparado. Não existe nada gráfico, mas eu acho importante avisar não se apegue. Porque é impossível não se apegar. Jasper é um cachorro lindo e a relação dele com Hig é, para mim, uma das coisas mais bonitas do filme. É muito interessante observar como um animal consegue trazer luz para a vida de uma pessoa que praticamente perdeu tudo. Mesmo naquele cenário, Hig ainda tem sonhos, desejos e vontades. Ele ainda quer viver determinadas experiências e tem uma obstinação enorme em realizá-las. É importante dizer que as cenas com o Jasper são bem importantes para o desenvolvimento de Hig.

O isolamento dele também deixa muito clara uma das principais ideias do filme por mais que a gente consiga sobreviver sozinho por algum tempo, as pessoas precisam de outras pessoas. Hig e Bangley são completamente diferentes, mas dependem um do outro. Enquanto um ainda mantém algum tipo de esperança e humanidade, o outro parece muito mais adaptado àquele mundo brutal. E o filme também mostra que, ao mesmo tempo em que precisamos uns dos outros, não podemos simplesmente confiar em todo mundo.

E é aí que entram os chamados invasores. Eu fiquei um pouco confusa com a forma como alguns deles são apresentados. Em determinadas cenas, eles parecem quase desumanizados, agindo de uma maneira que me lembrou muito Extermínio. Tem uma sequência específica em que eles sobem em uma torre que me deixou pensando essas pessoas estão simplesmente desesperadas para sobreviver ou existe alguma coisa naquela doença que provocou esse comportamento? Porque o filme nunca explica muito bem.

E essa é uma questão que aparece algumas vezes surgem situações e personagens que nos fazem pensar “tá, mas de onde veio isso?” ou “como exatamente isso aconteceu?”. Não necessariamente são cenas ruins algumas, inclusive, são bastante surpreendentes, mas são momentos em que eu senti falta de uma explicação maior. Talvez seja aí que o filme flerte um pouco com a ficção científica sem realmente assumir esse lado ou explicar suas próprias regras.

Por outro lado, as cenas de ação são muito boas. E uma coisa que eu gostei bastante é que elas conseguem surgir quase do nada. O filme está seguindo um ritmo mais contemplativo e, de repente, acontece alguma coisa e a ação explode. Em alguns momentos eu realmente fiquei surpresa. São cenas dinâmicas, bem construídas e, para mim, um dos pontos em que a direção de Ridley Scott mais funciona. Visualmente, o filme também tem uma identidade muito interessante, principalmente naquela fotografia mais cinzenta e melancólica que reforça o cenário pós-apocalíptico.

E existe um momento muito bonito quando eles estão com as crianças, porque a fotografia parece ganhar um pouco mais de vida. É também um dos momentos em que percebemos Hig de uma maneira diferente ele está ajudando outras pessoas e, naquele pequeno espaço, parece encontrar novamente algum sentido para aquilo que está fazendo.

Temos também a personagem Cima, interpretada por Margaret Qualley, que desenvolve uma espécie de romance com Hig. E aqui eu acho que o filme acerta justamente por não transformar isso no centro da história. Existe uma relação entre os dois, existe uma carência e uma identificação, já que ambos carregam perdas, mas o romance está ali acontecendo sem dominar a narrativa. Para mim, ele não acrescenta necessariamente muito à história, mas também não atrapalha.

No fim das contas, Ponto Sem Retorno é uma grande mistura de ação, ficção científica e filme de fim do mundo. É uma verdadeira salada de gêneros e ideias que, para mim, funciona melhor em alguns aspectos do que em outros. Jacob Elordi entrega bem o papel. Não acho que seja uma atuação extraordinária ou que seja um daqueles filmes que vão ficar marcados pela atuação dele, mas ele faz exatamente o que o personagem pede. E eu gosto de vê-lo cada vez mais experimentando papéis diferentes.

De maneira geral, acho que o elenco está bem na medida. Ninguém está fazendo algo excepcional, mas todo mundo entrega o necessário para a história funcionar. Meu maior problema está mesmo no roteiro e na construção desse mundo. Existem muitas situações convenientes e algumas perguntas que ficam sem resposta. Em determinados momentos, eu senti que o filme simplesmente jogava alguma coisa na tela e seguia em frente, esperando que a gente aceitasse.

E eu terminei o filme com mais perguntas do que respostas. Só que, curiosamente, isso não significa que eu não tenha gostado. Gostei da ação, gostei da relação de Hig com Jasper, gostei da atmosfera e gostei de alguns detalhes visuais. Então, apesar dos problemas de roteiro e de todas as conveniências que me fizeram questionar algumas coisas durante a sessão, Ponto Sem Retorno foi uma surpresa positiva para mim.