Pega Essa Dica – Gonzaguinha — Da Maior Liberdade

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Gonzaguinha — Da Maior Liberdade é um documentário dirigido por Susanna Lira que revisita a trajetória de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, a partir de imagens de arquivo, entrevistas, registros históricos e, principalmente, da própria voz do artista.

Mas é importante entender que o documentário não pretende ser uma biografia completa ou explicar em detalhes todos os aspectos da vida de Gonzaguinha. A proposta é outra investigar a imagem pública do artista e permitir que ele mesmo fale sobre quem era, o que pensava e no que acreditava.

A diretora recorre principalmente a registros das décadas de 1970 e 1980, deixando Gonzaguinha se apresentar através de entrevistas antigas, performances e, claro, de suas músicas. É quase como se o documentário se recusasse a explicar demais o artista e preferisse deixá-lo falar por si próprio. Em alguns momentos, ele parece extremamente acessível, mas basta uma pergunta mais provocativa para surgir um homem muito direto, duro e até um pouco desconcertante. Os olhares para a câmera, as pausas e principalmente as reações dele durante as entrevistas dizem tanto quanto as próprias respostas.

O documentário mostra, inclusive, algumas dessas contradições. Gonzaguinha fala sobre a censura que atingiu suas músicas durante a ditadura e demonstra indignação diante de determinadas intervenções, algumas delas bastante absurdas. Ao mesmo tempo, existe nele um certo desapego, quase um deboche diante de algumas situações. Ele conta, por exemplo, que uma de suas músicas chegou a ser questionada por causa da palavra “Maracanã”. E você fica pensando o que poderia haver de tão perigoso em uma palavra como essa?

Esses momentos ajudam a entender não apenas o período histórico, mas também a personalidade de Gonzaguinha diante dele. Ele não era um artista que parecia disposto a suavizar o próprio discurso para se tornar mais palatável.E é justamente através desse discurso que o filme encontra seu principal caminho.

O documentário é dividido de certa maneira pelas músicas de Gonzaguinha, e são elas que conduzem a reflexão sobre o artista. Não existe uma preocupação excessiva em revelar sua intimidade ou buscar grandes segredos sobre sua vida pessoal. O foco está muito mais naquilo que ele produziu e na maneira como utilizou sua música para falar sobre o Brasil.

A quantidade e a qualidade dos registros utilizados são muito boas. Temos entrevistas, apresentações, imagens de arquivo e até momentos relacionados à família do artista, incluindo registros de sua mãe e referências à relação com seu pai, Luiz Gonzaga. Porém, essas questões não são aprofundadas. Elas aparecem como parte da construção da persona de Gonzaguinha, e não como o centro da narrativa.

E existe algo muito interessante em observar um homem com uma voz relativamente suave fazendo declarações tão fortes. Gonzaguinha utilizava a música e a própria voz para falar sobre desigualdade, política, liberdade, repressão e sobre o Brasil em que estava vivendo. E o mais impressionante é perceber o quanto algumas dessas questões continuam atuais.

O documentário acaba mostrando que muitas das inquietações presentes nas músicas de Gonzaguinha não ficaram presas ao período da ditadura ou da redemocratização. Elas continuam dialogando com o presente. Ao mesmo tempo, existe uma melancolia muito particular na construção do filme. Sabemos que estamos acompanhando um artista que morreria precocemente, e isso inevitavelmente muda a maneira como enxergamos aquelas imagens.

Ele é um documentário curto, direto e muito mais interessado em revisitar o pensamento e a obra de Gonzaguinha do que em explicar completamente o homem por trás do artista. Pode ser que quem procure uma biografia detalhada ou uma investigação profunda sobre a vida pessoal do cantor sinta falta de algumas respostas. Mas, se você entrar no filme entendendo que a proposta é observar Gonzaguinha através de seus próprios registros, de suas músicas e de sua postura pública, ele se torna uma experiência muito interessante.