Viva Marília, dirigido por Zelito Viana e Esperança Mota, é um documentário que celebra a trajetória de Marília Pêra tendo como pano de fundo as transformações políticas, sociais e culturais do Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. A partir de imagens raras do acervo pessoal da artista, o filme percorre sua trajetória no teatro, na televisão e no cinema, recuperando trabalhos importantes e momentos marcantes de uma carreira que reúne 114 obras e mais de 80 prêmios nacionais e internacionais.

Para mim, um dos grandes destaques está justamente no material de arquivo. Eu gosto muito de registros de teatro, então poder acompanhar trechos de diferentes trabalhos de Marília e observar sua presença em cena é uma das partes mais interessantes do documentário. As imagens ajudam a dimensionar não apenas o talento da artista, mas também a importância que ela teve dentro da cultura brasileira.
O documentário também contextualiza momentos importantes de sua carreira, como sua participação em Roda Viva, de Chico Buarque, e a perseguição que sofreu durante a ditadura militar. Além disso, os depoimentos ajudam a construir essa percepção de Marília como uma artista completa, que transitava pelo teatro, pela televisão, pelo cinema, pelo canto e pela dança.
Mas existe uma questão que, para mim, deixa o filme um pouco incompleto conhecemos muito mais a carreira de Marília Pêra do que a própria Marília Pêra. O documentário praticamente não entra em sua vida pessoal, deixando de lado relacionamentos, casamentos, polêmicas e aspectos de sua trajetória fora dos palcos e das câmeras. E eu entendo que isso pode ter sido uma escolha consciente da direção, principalmente considerando que a proposta é claramente celebrar sua carreira. Ainda assim, senti falta de uma abordagem um pouco mais ampla da pessoa por trás da artista.

Inclusive, algumas questões mais controversas de sua trajetória poderiam ter sido apresentadas, como seu apoio a Fernando Collor nas eleições de 1989. Não necessariamente para diminuir sua importância ou transformar o documentário em uma exposição de polêmicas, mas porque mostrar também contradições, escolhas e momentos questionáveis poderia tornar o retrato mais humano e completo.
Funciona muito bem como uma homenagem à grande artista que Marília Pêra foi. O problema é que, ao escolher olhar quase exclusivamente para essa faceta, o filme acaba apresentando uma imagem bastante idealizada dela. É um documentário muito bom para conhecer ou revisitar sua obra, mas eu teria gostado de sair dele conhecendo um pouco mais da mulher por trás de toda aquela carreira.

