Pega Essa Dica – Carrie, a Estranha

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Carrie, a Estranha é uma nova adaptação do clássico de Stephen King, agora em formato de série para o Prime Video. A produção é desenvolvida, escrita e dirigida por Mike Flanagan, com direção também de Kate Siegel, Axelle Carolyn, Kyra Sedgwick e Hiromi Kamata. A primeira temporada tem 8 episódios, disponíveis no Prime Video.

Após a morte repentina do pai, Carrie White precisa enfrentar pela primeira vez o ambiente de uma escola pública, enquanto sua vida é transformada pela crueldade dos colegas. O bullying sofrido por ela viraliza nas redes sociais, colocando Carrie no centro de um escândalo que envolve tecnologia, exposição pública e fake news, ao mesmo tempo em que seus poderes telecinéticos começam a despertar.

Eu gostei da série. É uma boa adaptação, funciona bem como entretenimento e consegue atualizar a história para os dias atuais. É interessante acompanhar essa versão inserida em um mundo dominado por redes sociais, inteligência artificial, fake news e cyberbullying, mostrando como a humilhação pode ganhar proporções ainda maiores quando tudo pode ser gravado, compartilhado e viralizado.

A série também brinca com elementos de filmes como Meninas Malvadas e Jovens Bruxas, trazendo dinâmicas de popularidade, rivalidade, exclusão e crueldade adolescente misturadas ao sobrenatural. Essas referências combinam com a proposta de atualizar Carrie para uma nova geração e dão à produção uma identidade própria.

A trilha sonora está maravilhosa e é um dos grandes acertos da série. Temos músicas de artistas como Lana Del Rey, Metric, K.Flay, AURORA, Conan Gray, The Last Dinner Party e Wolf Alice, além da trilha original composta pelos Newton Brothers. Destaque para “Did You Know That There’s a Tunnel Under Ocean Blvd”, de Lana Del Rey. O melhor é que as músicas se encaixam nas cenas e combinam com os personagens, ajudando a construir tanto a atmosfera adolescente quanto os momentos mais sombrios da história. É um dos pontos em que a série realmente acerta.

Mas algumas escolhas me incomodaram. Carrie não é uma X-Men, e isso já me incomodava desde a adaptação anterior, com essa tentativa de transformar a personagem quase em uma Jean Grey. Aqui fazem isso novamente. Existem momentos em que Carrie está treinando e descobrindo seus poderes de uma maneira que parece muito mais próxima de uma personagem de super-heróis do que da Carrie que conhecemos.

Summer H. Howell está maravilhosa. Ela consegue transmitir toda a inocência, o carisma e a simplicidade da personagem, construindo uma Carrie muito humana e vulnerável. Para mim, é a melhor adaptação da personagem desde Sissy Spacek.

Samantha Sloyan também está perfeita como Margaret White. Aqui temos uma mudança interessante: não estamos diante apenas daquela mãe religiosa completamente insana que já conhecemos de outras versões. A série apresenta uma Margaret mais complexa, com contradições, medo e até uma relação de amor e proteção com a filha. Isso dá uma nova dimensão à personagem, embora eu sinta falta de alguns elementos que tornavam sua relação com Carrie tão perturbadora.

No fim, Carrie funciona. É uma série bem produzida, com boas atuações e uma atualização interessante para os tempos atuais. O problema está justamente em algumas escolhas de Flanagan ao expandir demais a mitologia e transformar os poderes de Carrie em algo muito maior do que precisava ser.

SPOILERS A PARTIR DAQUI!

A série merece elogios pela produção, pelas atuações e pelo roteiro atualizado para os dias atuais. Mas, para mim, tem um problema: isso não é Carrie. Pelo menos, não a Carrie que eu conheço e que fez dessa história um clássico.

A cena do baile, que é um dos momentos mais icônicos da história, é, para mim, a pior já feita. Tudo acontece de maneira corrida, sem emoção e sem o impacto necessário para entregar aquilo que foi construído ao longo da temporada. É justamente o momento que deveria concentrar toda a tensão, a crueldade e a tragédia de Carrie, mas acaba sendo muito fraco.

Além disso, não temos o convite para o baile combinado como nas outras versões, e a manipulação dos votos acaba anulando a culpa dos outros colegas de escola. Pela lógica apresentada aqui, eles nem mereciam morrer, já que não participaram diretamente da humilhação de Carrie. Isso enfraquece a tragédia, porque tira parte da responsabilidade coletiva que tornava a cena tão cruel e impactante.

A mãe de Carrie está muito bem construída e Samantha Sloyan entrega uma ótima atuação, mas senti falta dos elementos religiosos que faziam a gente sentir raiva de Margaret e, ao mesmo tempo, ter pena dela. Essa mistura de fanatismo, abuso e sofrimento era fundamental para a personagem. Ao tentar torná-la mais humana, a série acaba deixando de lado parte daquilo que a tornava tão perturbadora.

E essa amiga com poderes, que a princípio parece imaginária, mas depois descobrimos que não é? Gente, sério, para quê? Qual é a necessidade disso? E não para por aí: existem outras meninas com habilidades semelhantes e até outros poderes? A série começa a introduzir elementos que parecem querer transformar Carrie em parte de um universo de super-heróis, como se seus poderes precisassem ser explicados e desenvolvidos dessa maneira. Carrie não é uma X-Men!

A cena final do confronto entre mãe e filha também é muito ruim e fraca. E como assim a mãe estava viva e depois morre de outra forma, completamente diferente do que a história vinha construindo? A série foge do contexto apresentado em outras adaptações e muda justamente elementos que já funcionavam muito bem.

Mesmo conhecendo o final, sempre foi interessante rever essa história e acompanhar como tudo caminhava para aquela tragédia. Aqui, porém, as mudanças não tornam o desfecho mais impactante. Pelo contrário, tiram boa parte da força da história. Para mim, até o final do filme de 2013 funciona melhor do que esse.

E o final desta série é, disparado, o pior de todas as adaptações que assisti. Sério, qual é a próxima etapa? Carrie vai para o Instituto Xavier para Jovens Superdotados? Só faltou aparecer uma tela preta escrito: “Carrie retorna em Vingadores: Doomsday”.

É uma boa adaptação e um bom entretenimento, mas ainda fico com a sensação de que Carrie não precisava virar a Jean Grey do Stephen King.