Pega Essa Dica – A Memória do Cheiro das Coisas

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A Memória do Cheiro das Coisas, dirigido por António Ferreira, acompanha a história de Arménio, um ex-combatente português das guerras coloniais, que é obrigado a viver em um lar para idosos. Marcado pelas lembranças do período em que serviu ao exército durante o processo colonial em Angola, ele carrega os traumas e silêncios de um passado que insiste em retornar. No asilo, Arménio conhece Hermínia, uma cuidadora negra cuja presença o leva a confrontar não apenas os fantasmas da guerra, mas também as contradições de sua própria história. A relação entre os dois se transforma gradualmente em uma amizade improvável e profundamente humana, revelando tensões e afetos em torno de temas urgentes como o envelhecimento populacional, o racismo estrutural e o legado do colonialismo.

Além de narrar sua própria história, o filme faz com que a experiência se desenrole como uma lembrança viva, delicada e, por vezes, cruel. É uma obra sensível e profundamente humana, em que o diretor transforma a decadência da velhice e o peso da culpa histórica em matéria poética. Cada silêncio, cada cheiro e cada olhar parecem carregar o fantasma de um passado que insiste em permanecer, tornando o filme uma meditação sobre memória, culpa e sobrevivência.

O filme retrata a velhice como um verdadeiro campo de batalha, onde o corpo e a memória travam uma luta silenciosa. Os enquadramentos, construídos com delicadeza e lentidão quase imóvel, transformam o tempo em uma espécie de prisão. A chave da memória está no cheiro: as lembranças de Arménio, o protagonista, não vêm do que ele viu, mas do que sentiu. O odor da terra molhada em Angola, o perfume das cartas queimadas, o suor do medo tudo o que o filme evoca, e não mostra, possui mais força do que qualquer flashback explícito, fazendo da ausência um poderoso instrumento narrativo.

É um filme difícil e contemplativo, que não oferece respostas imediatas. Ele exige paciência e entrega do espectador para acompanhar essa jornada interior. A forma lenta e contida de narrar pode, em alguns momentos, cansar, mas é justamente essa cadência que nos permite compreender o peso e a solidão do protagonista. Cada pausa, cada silêncio prolongado, é parte essencial da experiência emocional que o filme propõe.

A relação entre Arménio e Hermínia constitui o núcleo emocional da história, mas nunca se torna sentimentalista. A redenção é difícil, e o filme nos conduz por uma mistura de empatia, atritos e silêncios. Hermínia representa uma espécie de vingança silenciosa, mas sem violência a presença viva do que foi oprimido, uma lembrança humana que não se apaga. Quando Arménio a observa, é como se o próprio passado o observasse de volta, lembrando-lhe de todas as feridas que carregou e nunca resolveu.

A fotografia de Leandro Valente reforça a sensação de aprisionamento com sombras densas, planos longos e texturas quase palpáveis. O som, por sua vez, surge como outro protagonista o ruído do vento, o ranço das portas, o sopro abafado de respirações tornam-se ecos da guerra que ainda ressoa dentro de Arménio. A ausência de música, em muitos momentos, tem mais peso do que qualquer trilha sonora, amplificando a tensão e a intimidade do filme.

Não se trata de um filme sobre a guerra em si, mas sobre o que dela permaneceu em uma pessoa o corpo que envelhece, a mente que se repete, o passado que se infiltra em tudo. O lar de idosos, nesse sentido, funciona como uma metáfora de Portugal  um lugar que tenta esconder seus fantasmas atrás de paredes limpas, mas cujo cheiro de esquecimento insiste em escapar pelas frestas.

O filme pode, por vezes, perder um pouco do apelo devido à sua densidade e ritmo lento. Apesar de iniciar com força, algumas partes do meio até o final perdem um pouco da sutileza. Ainda assim, permanece uma obra de reflexão poderosa, em que o diretor consegue abordar a guerra colonial sem mostrar armas, mas através dos cheiros, memórias e do peso da respiração de um homem idoso tentando simplesmente existir.