Cyclone, dirigido por Flávia Castro, acompanha a trajetória de Dayse, uma operária com alma de dramaturga que divide seus dias entre o trabalho intenso em uma gráfica e a colaboração secreta nos bastidores do Theatro Municipal de São Paulo, no início do século XX. Em meio à rotina dupla, ela vive um romance oculto com Heitor Gamba, autor e diretor teatral. Quando uma gravidez indesejada ameaça seus planos entre eles o sonho de conquistar uma bolsa de estudos em Paris Dayse se vê confrontada por forças muito maiores que os preconceitos da época. Livre em espírito, mas aprisionada pelas circunstâncias, ela descobre que o maior desafio para seguir adiante será enfrentar e sobreviver a um aborto clandestino, num país que ainda pouco compreende, ou aceita, a autonomia das mulheres sobre seus próprios corpos.
Este é o tipo de filme que apresenta uma mulher cheia de ideias, ambições e vontade de crescer, mas que vive em um tempo que simplesmente não permite isso. Dayse tenta, com todas as forças, realizar o sonho de se tornar dramaturga e até consegue colaborar criativamente nos bastidores porém, sem receber o devido crédito. O que vemos é uma mulher tomada pela frustração, constantemente incompreendida por quase todos ao seu redor. A narrativa evidencia como, no início do século XX, as mulheres eram privadas de direitos básicos, reduzidas ao papel de procriar, independentemente de seus desejos, talentos ou sonhos. Quando uma delas ousava querer viver a própria vida, recusando o destino imposto de ser mãe, a sociedade fazia questão de puni-la. E, sem acesso a um aborto seguro, Dayse é obrigada a colocar sua própria vida em risco.

Embora a história se passe há mais de cem anos, é impossível ignorar o fato de que ainda discutimos esses temas hoje. O filme aponta para o passado, mas fala diretamente com o presente. A obra é objetiva e não se perde em desvios narrativos. No começo, dá a impressão de que irá se estender, mas logo encontra seu ritmo e se desenvolve com firmeza. Os diálogos têm um tom teatral, o que não só combina com o universo da história, mas também reforça o drama íntimo da protagonista. Assistir ao desespero de uma mulher que luta para não se tornar mãe é profundamente impactante. A narrativa deixa claro que a maternidade, para ela, seria um verdadeiro pesadelo. E se hoje ainda existe julgamento contra mulheres que não desejam ser mães, imagine naquela época.
É o tipo de obra que provavelmente vai dividir opiniões, especialmente pelo tema que aborda. Um ponto muito interessante no filme é a forma como o pai da criança para quem Dayse é apenas a amante reage à gravidez. Ele aceita a ideia de ter uma “segunda família” com uma tranquilidade quase absurda, como se fosse uma decisão exclusivamente dele. Em nenhum momento considera o que isso significa para Dayse. Para a mulher, sempre pesa mais. Ele não reflete sobre o fato de que, de uma forma ou de outra, ela teria de abrir mão do teatro o que para ele pode até ser uma vantagem mantê-la no anonimato . A gestação, naquela época, era ainda mais dura do que hoje, cheia de limitações, riscos e julgamentos, enquanto para o homem tudo parecia apenas mais uma consequência natural da vida feminina.
É por isso que a decisão firme de Dayse recusar a maternidade não soa apenas como algo difícil, mas como um ato de coragem profundamente ligado à sua identidade artística. Sua contribuição para o mundo está nas obras que ela cria, naquilo que ela sonha realizar, não em um destino imposto pela sociedade. E é justamente dentro do ambiente do teatro que ela encontra uma rede de apoio formada por mulheres que compreendem sua dor, sua ambição e sua necessidade de sobreviver às escolhas que lhes são negadas.
O filme conta com um elenco muito sólido, capaz de transmitir uma ampla gama de emoções. A atriz que interpreta Dayse, em especial, mantém uma firmeza impressionante ao longo de toda a narrativa. Mesmo quando a personagem flerta com alguns exageros que podem soar um pouco incômodos, sua entrega é tão profunda que ainda funciona chega até a ganhar um tom poético.
A direção deixa claro desde o início que seu objetivo é evidenciar o quanto aquela época era cruel para as mulheres. As cenas da gráfica são um ótimo exemplo disso é interessante ver o processo de trabalho da época sendo executado majoritariamente por mulheres, enquanto tantos filmes ambientados nesse período preferem se concentrar no glamour. Observar o “outro lado da moeda”, especialmente em um contexto brasileiro, é revelador.
A fotografia segue essa proposta, adotando tons mais escuros que refletem tanto o peso do tema quanto a sobriedade do momento que Dayse atravessa. A trilha sonora é bem integrada ao filme, costurando as cenas de forma competente, mas não chega a ser memorável ao menos para mim, não deixou marca.
A cenografia e a construção de época são pontos fortes. As escolhas feitas para retratar o Brasil daquele período foram muito acertadas e sem excessos. O figurino também é bem pensado apesar de algumas licenças poéticas, há um cuidado notável em como as roupas ajudam a contar a história. Em certas cenas, Dayse veste peças consideradas masculinas uma escolha simbólica que reforça o comentário do filme o lugar que ela almeja era, naquela época, reservado apenas aos homens. Ao retirar dela toda a feminilidade nesses momentos, o filme deixa evidente o peso social que ela carrega.
No fim, Cyclone é um filme de temas pesados, mas que opta por focar na discussão, e não em chocar. Ele talvez não seja uma obra marcante, e tem momentos que surgem de maneira um pouco abrupta. Ainda assim, considero que é mais um acerto do cinema brasileiro. Pode até ser “poético demais” para atrair o grande público, mas é um filme que merece atenção pelo que discute e pela forma como escolhe contar essa história.

