Pega Essa Dica – Depois da Caçada

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Em ‘Depois da Caçada’, Alma Imhoff (Julia Roberts), professora da renomada Universidade de Yale, tem uma vida acadêmica aparentemente tranquila e uma rotina ao lado do marido. Porém, sua vida dentro e fora de casa torna-se conturbada após ser o fio condutor em uma acusação grave envolvendo a sua melhor aluna, Maggie Price (Ayo Edebiri), e um colega de trabalho, Hank Gibson (Andrew Garfield). O longa se desenrola como uma guerra fria entre os três, atravessada por disputas de poder, ética e justiça.

Faz parte da filmografia do diretor Luca Guadagnino questões complexas envolvendo os personagens. Ele os posiciona em redes de disputa amorosas ou de poder, que acabam se tornando reflexos de uma sociedade em conflito, ainda que com certas hipérboles. No caso de ‘Depois da Caçada’, há um impasse entre os três protagonistas que nasce do erro de um e se transforma em algo menos sobre o que aconteceu e mais sobre a posição de cada um deles na sociedade, como serão vistos e como isso afetará suas carreiras. É um buraco em que Alma se colocou ao aceitar a bajulação de alunos e colegas apenas para se sentir relevante, mas que nunca esperou estar na posição de ter que ajudar quem sempre lhe endeusou. A protagonista fica dividida devido às suas próprias vontades e segredos, colocando a própria ética em disputa e revelando uma persona fria, narcisista e rude.

O enredo prolonga a discussão sobre vítima e culpado e traz de maneira desnecessária a dúvida na veracidade da história da vítima. Enquanto sociedade, não cabe mais questionar a palavra de quem faz uma acusação, mas o roteiro insiste em construir uma narrativa de incertezas e mentiras, como se quisesse, a todo o custo, culpar a vítima. Mesmo provando o contrário ao final e entregando essa resolução sem uma resposta concreta. A discussão geral se encontra nas diferenças e dificuldades enfrentadas por cada geração, algo refletido nos três personagens, que representam suas gerações distintas.

As atuações são o ponto alto do filme, tão boas que, em certos momentos, o espectador chega a se irritar com os personagens, de tão autodestrutivos que são. Julia Roberts encara uma protagonista com ar de vilã, mas que, na verdade, só está perdida nas próprias escolhas. No ritmo do tique-taque do relógio, em algumas cenas, ela parece sempre correr contra o tempo, para provar-se em um meio onde já está estabelecida. Sua carreira brilhante foi construída por seu vício em medicamentos para controlar sentimentos, segredos e culpa que passou anos reprimindo. A Maggie de Ayo Edebiri é ótima; a atriz traz um peso desde a primeira discussão do longa. Ela é a personificação da geração Z, dá para sentir sua angústia e desamparo desde a primeira cena até a última. Já Hank, o personagem de Andrew Garfield, é o menos aprofundado dos três; parece meio óbvio, já que ele é o “antagonista” da história, ele representa o homem branco e mulherengo que “nunca” fez nada de errado na vida e tem a carreira bem resolvida. Durante o filme, ele fala diversas vezes sobre si e no final percebe-se que dentre todos, ele é o que menos é desenvolvido ali, mas mesmo com um personagem não tão bem escrito, o ator entrega uma ótima performance que sempre nos faz duvidar da sua real índole. Essa ausência de detalhes sobre sua vida pessoal, diferente de como é retratado com as outras duas personagens, parece ser uma maneira de aumentar esse questionamento em relação ao seu caráter.

A trama, apesar de arrastar demais a temática principal que discute, cria o interesse de para onde tudo isso será levado. O roteiro mantém viva a tensão de que, a qualquer momento, a vítima pode ser pintada como culpada; no meio das cenas bem gravadas e de longas conversas sobre a sociedade e as suas pautas contemporâneas. ‘Depois da Caçada’ traz um suspense muito atual, mas com uma discussão que parece já ultrapassada, ainda assim, o carisma e a entrega do grande elenco geram interesse no filme e no desenrolar de todo esse emaranhado da história.

É mais um bom filme do conhecido cineasta, mas que poderia ter tido um pouco mais de cuidado para não parecer tão pedante.