Pega Essa Dica – Deserto de Akin

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Deserto de Akin, longa-metragem dirigido por Bernard Lessa, narra com delicadeza a trajetória de um médico cubano que se encanta pelo Brasil ao participar do programa Mais Médicos. Em meio à imensidão da floresta e à diversidade cultural das comunidades indígenas, Akin encontra não apenas um novo lar, mas também vínculos afetivos e profissionais que o conectam profundamente ao território e às pessoas que nele habitam. No entanto, esse pertencimento é abalado por um momento tenso político: a eleição de Jair Bolsonaro e a consequente ruptura das relações de cooperação entre Brasil e Cuba, que desmantela o programa de saúde em que Akin atuava. Forçado a uma escolha dilacerante retornar ao país natal ou permanecer onde não pode mais exercer sua profissão, o protagonista simboliza uma multidão de histórias apagadas por decisões de Estado que ignoram o valor humano da presença estrangeira.

Akin é um protagonista atípico. Por ser estrangeiro, pela pressão política da ascensão bolsonarista e pelos dois amores que surgem em seu caminho Érica e Sérgio, ele teria todos os elementos para se tornar um herói trágico, daqueles movidos por paixões intensas, conflitos ideológicos e escolhas dilacerantes. Mas Bernard Lessa opta por outro olhar. O Akin que vemos na tela é, ao mesmo tempo, carinhoso e estranho ao próprio destino. Há algo de suave e passivo em sua presença. Ele nunca parece sentir de fato a saudade de Cuba, nem demonstra pesar diante do retorno iminente. Atua como médico com entrega visível, mas sem grande fervor como se fosse alguém que cuida não por vocação, mas porque é assim que ele caminha pelo mundo. Fiquei impressionada com a calma e paz transmitida pelo personagem.

Akin acompanha o tom do projeto por inteiro e isso não é à toa. O Deserto de Akin é, acima de tudo, uma obra coesa. Estética e conceitualmente, segue fiel aos princípios que escolheu desde o início: uma linguagem contida, sem floreios, quase crua. A produção aposta na luz natural, mesmo quando ela não favorece a cena. O som estoura em diversas passagens, inclusive em espaços fechados, como o consultório médico. Visualmente, a narrativa constrói uma paleta terrosa, bege, que domina a experiência como um todo. Não há grandes variações de ritmo, nem de linguagem. É um filme deliberadamente linear, monocromático ele pode ter momentos monótonos, não existe nenhuma grande ação nem grandes conflitos, temos momentos tensos mas tudo é contado com muita calmaria o que é curioso pois estamos falando de um momento bem ruim vivido no Brasil.

As interações entre os personagens também carregam esse tom leve, quase distraído. A câmera, sempre na mão, oscila de um lado para o outro, mas os personagens permanecem adequadamente posicionados no centro do quadro, como se o movimento não estivesse ali para provocar, apenas para acompanhar.

Os personagens parecem sempre em espera sentados, aguardando que seus interlocutores entrem em cena para que a conversa comece. As ações, quando ocorrem, nem sempre geram consequências visíveis. Ou, quando geram, essas consequências são suavizadas pela montagem. Por exemplo, a garota com problemas na visão já aparece operada, tudo deu certo, e seguimos em frente. Os bares são vazios e silenciosos, assim como as praias, os consultórios, as ruas. Neste mundo, as pessoas amam ou trabalham ou discutem o futuro mas quase nunca tudo isso ao mesmo tempo. E talvez esta seja a maior contradição desse filme que é uma aposta no naturalismo: a vida raramente acontece de forma tão compartimentada.

Falta textura, falta variação no modo de olhar de enxergar mesmo, com a câmera os espaços e os corpos que se movem (ou não) dentro deles. Tudo é bastante pragmático, como se registrar o que acontece já fosse suficiente. Com isso, o filme nunca chega a explorar de fato a relação de Akin com os lugares por onde passa, com o que ficou para trás, ou mesmo com sua sexualidade. As coisas simplesmente estão sem tensão, sem camadas, sem conflito real.

Por que, depois de um ano no Brasil, convivendo com pessoas de baixa escolaridade, Akin sequer arrisca uma palavra em português nem mesmo um portunhol improvisado e como essas pessoas entendem algumas palavras? Como ele reage ao ouvir, quase como ruído de fundo, o avanço da extrema-direita no país sempre encaixada depois, por cima, em rádios e podcasts que parecem ilustrar uma ideia, mais do que afetar de fato os personagens? Akin atravessa a narrativa quase sem deixar marcas. É como se nada nele enraizasse: nem aqui, nem lá.

O tema é importante, carregado de potência, e Akin é um personagem que tinha tudo pra entregar uma história densa, cheia de camadas. Mas a escolha por uma narrativa linear, controlada demais, acaba esvaziando essa força. Falta risco, falta conflito real. A diretora opta por um caminho seguro, e com isso o filme perde muito do impacto que poderia ter  emocional, político, humano.

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