Em Eclipse, somos apresentados a Cleo, uma astrônoma que atravessa um momento de grande fragilidade emocional durante sua gravidez. Sua rotina é atravessada pela chegada inesperada de sua meia-irmã indígena, Nalu, que traz à tona revelações perturbadoras sobre o passado do pai das duas. A partir desse encontro, o filme se desenrola em uma investigação marcada por segredos sombrios, enquanto as irmãs constroem, aos poucos, um vínculo afetivo que transforma profundamente suas trajetórias.

Apesar de partir de uma premissa potente, o filme apresenta dificuldades em conduzir sua narrativa de forma clara e envolvente. Desde o primeiro contato inclusive pelo pôster, que pouco comunica sobre a história, já se percebe uma certa desconexão. Ao longo da projeção, essa sensação se intensifica e a narrativa parece dispersa, com múltiplas tentativas de criar analogias e camadas simbólicas que nem sempre se concretizam de maneira significativa.
Um exemplo disso é o uso de elementos como a onça, que surge carregada de possível simbolismo, mas não se desenvolve de forma relevante dentro da trama. Há um esforço evidente de construir metáforas, mas muitas acabam soando soltas, sem um impacto real na história principal. Essa escolha contribui para um ritmo irregular o filme demora a chegar ao seu ponto central e, quando finalmente o faz, trata-o de maneira apressada.

A sensação constante é de excesso de informação e falta de foco. Diversos núcleos narrativos são introduzidos como o passado de Nalu, sua relação com a ancestralidade e a presença simbólica da avó, mas muitos desses elementos não são devidamente explorados. O arco de Nalu, em especial, carrega um enorme potencial dramático, mas acaba sendo tratado de forma superficial, com desfechos pouco claros e um desenvolvimento que não faz jus à complexidade da personagem.
O mesmo acontece com outros aspectos da trama subplots surgem, se desenvolvem parcialmente e são abandonados ou resolvidos de maneira rápida demais. Há uma tentativa de construir tensão em torno do marido de Cleo, por exemplo, mas o tempo dedicado a estabelecer sua imagem “ideal” acaba sendo desproporcional em relação ao impacto que isso gera na narrativa. Outros núcleos, como o da mãe dele ou a menção a um irmão falecido, parecem mais distrair do que enriquecer a história.

O ponto central do filme que envolve temas extremamente delicados e importantes, como violência contra a mulher e abuso, é tratado com certa hesitação. A narrativa dá voltas excessivas antes de abordar diretamente essas questões, o que enfraquece o impacto da discussão. Quando finalmente chega ao centro o que o filme quer dizer, há uma quebra brusca de ritmo o que poderia ser aprofundado é resolvido rapidamente.
Ainda assim, há um momento que se destaca de forma muito potente uma cena próxima ao final, extremamente tensa e impactante, que finalmente concentra a força dramática que o filme promete desde o início. É uma sequência corajosa, incômoda e necessária talvez o ponto alto da obra. Nela, o peso do tema se manifesta com clareza, revelando o potencial que o filme poderia ter explorado de maneira mais consistente.

No entanto, essa potência isolada acaba evidenciando ainda mais as fragilidades do restante da narrativa. Falta construção para sustentar esse clímax, falta aprofundamento para que a tensão se estabeleça ao longo do percurso. Em nenhum outro momento o filme consegue gerar verdadeiro suspense ou envolvimento emocional contínuo.
Em termos de linguagem, o filme aposta em silêncios e pausas que, em teoria, poderiam contribuir para uma atmosfera mais sensível e contemplativa. Porém, na prática, esses momentos muitas vezes soam vazios, sem carregar a densidade necessária para sustentar o interesse do espectador. Apesar de ter uma boa trilha sonora para essa tentativa de tensão.
Por outro lado, é importante destacar alguns acertos. A fotografia apresenta momentos visualmente muito bonitos, especialmente nas cenas que dialogam com o universo e os fenômenos astronômicos, como o eclipse. O uso da luz nesses momentos é particularmente interessante e ajuda a criar uma identidade estética para o filme.

O elenco também é um ponto positivo. Há nomes fortes e performances que se destacam, como a de Sérgio Guizé e da própria Djin Sganzerla, que também assina a direção. A atriz que interpreta Nalu entrega uma presença marcante, ainda que limitada pelo desenvolvimento irregular da personagem.
No geral, Eclipse é um filme que parte de uma base extremamente potente, com temas urgentes e relevantes, mas que se perde na forma como escolhe contar sua história. Ao tentar abraçar muitas ideias e construir múltiplas camadas simbólicas, acaba deixando de lado o essencial o aprofundamento do conflito central e o impacto emocional que ele poderia gerar.
O resultado é uma obra que oscila entre momentos de grande força e longos trechos de dispersão, um filme que tinha tudo para ser intenso e transformador, mas que acaba se tornando, em muitos momentos, superficial diante da complexidade do que se propõe a discutir.

